terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Crônicas do Mundo 2

~ O Aniversário de E. e o Rei Pavão ~
.
Da janela do hospital, E. pode ver um belo jardim, onde encontra pavões, flamingos, tucanos, araras, beija-flores e até mesmo dodós. O jardim é belo, com um gramado grande, muitas árvores, flores coloridas e um parquinho com vários brinquedos. Enfim, são quatro horas e a empregada chama E. para o chá da tarde. Tinha topo o tipo de guloseimas, doces, bolachas, bolos, salgadinhos e refrigerantes. E. pergunta, ao reparar na vela sobre o bolo “É aniversário de quem?”. As empregadas riem e dizem “Surpresa!”. Então, todos os amigos de E. se revelam. Isso é ótimo! Tem um chapéu de festa roxo sobre sua cabeça. E. e seus amigos comem até terem dor de barriga. Então, as empregadas levam todos para o Salão Imperial, onde E. abre seus presentes.

E. ganha bonecos, carrinhos, jogos, giz de cera, canetinhas e um videogame novinho em folha. O palhaço agora leva todos para fora onde haverá as brincadeiras. Uns brincam com as novas armas de água de E. Outros com os balões. Outros com a bola nova e algumas meninas brincavam com bonecas. Há até quem faça concurso de desenhos.

Na hora do esconde-esconde, E. decide se esconder embaixo da mesa dos salgadinhos. É lá, coberto pelo pano de mesa, E. conheceu A.

A. era uma menina legal que tinha uma bola verde e era boa em videogames. Explicou para E. que sua bola verde era mágica, e que a tinha roubado do mágico Houdini numa outra festa. Um de seus poderes mágicos era sempre voltar para sua mão. A. era muito esperta e fez com que E. batesse o salva-todos.

A. teve a idéia de brincar de caça ao tesouro. Naquele jardim havia um tesouro escondido. O tesouro de Suzaku, o rei dos pássaros; um dos 73 deuses do panteão do Mundo 2. Todos procuravam pistas como bobos, atrás dos arbustos, embaixo das mesas e sobre as árvores, mas A. sussurrou no ouvido de E. “Siga as penas fosforescentes”. E. seguiu a trilha de penas brilhantes que estavam esparramadas pelo chão e encontrou uma passagem secreta no muro, coberta pelas trepadeiras.

Naquele esconderijo secreto, Suzaku, um pavão gigante com uma cauda de sete cores e uma pequena coroa na cabeça dançava sobre seu baú dourado.

- Feliz aniversário, pequeno E. Meus parabéns, e aceite estas Tintas Celestes como meu presente.

E milhões de cores brilhantes voaram para fora do baú, deixando A. e E. encantados. As tintas deixaram o céu cor de rosa, a grama amarela e os cabelos de A. e E. verdes. Os dois deitaram sobre a grama e apreciaram as novas cores do mundo.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O fim do mundo, cap. 16

- Tem certeza que este é o cara Emily?
- Sim, tenho.
- Bem Max, até agora a Emily não se enganou nenhuma vez não é? – falou Ray.
- É ele sim. Lembro com clareza dele no meu sonho – comentou Claire.
Ótimo, tudo o que a gente precisava: mais um esquisito pro nosso grupo. Estávamos no refeitório. Era horário de almoço, e numa mesa no canto do salão sentava sozinho o Oitavo Escolhido. Nunca vi o cara em lugar nenhum. Devia ser novo no colégio. Era alto, magrelo, com um pescoço alongado e com uma postura horrível. Usava uns óculos fundo de garrafa e estava entretido jogando um vídeo game portátil. Quem é o cara que trás um vídeo game portátil pra escola? Aquele devia ser o maior nerd de nosso colégio.
- Ta legal Max, sabe o que fazer – disse Emily.
Estávamos eu, Emily, Claire e Ray na mesa. Os três me encaravam com a mesma cara de “vai Max!”.
- Ah, que situação idiota, mas eu sei que vcs não vão me deixar em paz até que seja feito. É melhor que venha alguém comigo pra dividir a vergonha.
Emily se dispôs. Andamos até a mesa do cara que nem ao menos tirou os olhos daquele jogo para ver quem se aproximava.
- Olá. Eu sou Emily e este é Max. Nós somos do primeiro ano e temos algo muito importante pra tratar com vc.
O cara olha pra Emily de canto de olho. O que significava aquilo?
- Vai Max, explica pra ele.
- Então, negócio é o seguinte: essa história é bem maluca, mas essa garota aqui – apontei para Emily – não vai me deixar em paz até que tudo seja dito, então presta atenção...
Comecei a contar toda a história pro cara. Alienígenas, portais interdimensionais, etc. Mas o infeliz não tirava os olhos daquele joguinho idiota. De repente, na hora que eu tava falando dos Escolhidos, o cara levanta da cadeira num pulo, joga a mão pra cima e diz:
- É isso aí. Consegui!
Olhei pra garota pra ver o que ela pensava. Estava indiferente como sempre.
- Ta maluco? Conseguiu o que?
- Olhe só – disse o cara me apontando aquele vídeo game – consegui! É o Totomon #201. Sabe o quanto foi difícil achar esse Totomon? Sabe que as chances de encontro deste Totomon nesta dungeon são de 1/128? Beleza! Faz meses que to procurando esse bicho! Yes!!! Bem, sinto muito, mas estarei ocupado capturando esta belezinha durante os próximos minutos. Se não se importam, falaremos depois.
O quê? Totomon? Como um cara de, no mínimo, dezesseis anos ainda brincava de Totomon? Aquilo só podia ser brincadeira.
- Droga, não me diga que ele não prestou atenção nenhuma ao que eu falei?
- Tenha calma, Max. Com licença, mas quantas vezes você encontra um Totomon por minuto nesta dungeon? – perguntou Emily pro nerd esquisitão.
- Uma média e cinco a sete.
- Droga Emily, o que isso tem haver com a história?
- Bem, se ele só tem uma chance em cento e vinte e oito de conseguir o que ele quer, e só pode tentar de cinco a sete vezes por minuto, então ele deve ta procurando faz um bom tempo e acaba de achar. Pode não ser uma mera coincidência. Melhor esperar ele capturar o Totomon. Ainda temos tempo para explicar a situação.
Aquilo era muito idiota. Totomon? O cara conseguia ser mais perdedor que qualquer um de nós. Emily esperou em silêncio o cara pegar o tal Totomon. Eu já tava doidinho pra voltar à minha mesa aproveitar o tempo que sobrava pro almoço. Nesse meio tempo, Claire e Ray vieram atrás de nós.
- Olá! Meu nome é Ray Taylor. Sei que parece difícil de acreditar nessa história, mas eu acredito. Também estou nessa, e este cara – Ray pos a mão sobre meu ombro de forma simpática – é o nosso líder.
Indiferença total por parte do nerd. O cara só pensava no tal Totomon número duzentos e um. E desde quanto todo mundo me considerava o líder daquela balela toda?
- Oi! Eu sou Claire Campbell, mas vc deve saber quem eu sou né? Olha, eu também acredito com todo o meu coração no que o Max te disse. O que vc acha de fazer parte do nosso grupo? Garanto que vc vai se divertir a beça com a gente!
O esquisitão lentamente desvia seus olhos para o sorriso simpático da Claire. Analisa bem a garota, dá uma franzida na testa e diz:
- Sinto muito, mas acho que não nos conhecemos. Agora, se me permitem, preciso usar toda a minha concentração nesta captura. Hum... Meu Totomon está paralisado. Preciso trocá-lo, mas por qual? Hum... Vejamos... Este é bom, mas ta com pouco life. Hum... Vejamos...
A Claire ainda sorria, mas com uma cara engraçada de espanto. Não é por menos. Quem não conhecia Claire Campbell? Principalmente em nossa cidade? O cara só devia pensar em vídeo games mesmo. Tava cansado de esperar o perdedor ser feliz com seu joguinho, então apressei as coisas.
- Olha, negócio é o seguinte: Os únicos que podem parar os alienígenas somos nós, os Escolhidos. Se vc acredita nisso, me procure quando acabar com teu joguinho. Se não acredita, azar o teu – falei, já dando as costas e voltando para meu almoço.
- Espera Max, isso não ta certo. Ele não ta prestando atenção em vc. Não é melhor a gente esperar?
- Ah, qual é Emily? Não é vc quem vive dizendo que eu tenho o poder do convencimento? Se o cara for mesmo um dos escolhidos, deve ter entendido a situação. E olha, to perdendo meu horário de almoço. Até mais!
- Espere! – eu já tava tomando meu caminho de volta, quando o esquisito chamou.
- O que é?
- Vc tem como provar o que ta dizendo?
- Como é que é???
- Digo, a premissa é boa. Dava um bom enredo de vídeo game. Quase um Mother, mas vc tem como provar via método empírico o que ta me dizendo? Não acredito em nada que não possa ser comprovado. Assim age um bom cientista.
- Método o quê??
- Método empírico, Max. Ele quer uma prova real de que o que estamos falando é verdadeiro. Desculpe. A única prova que temos é o Canal X. Se vc conseguir sintonizá-lo esta noite, bastará como prova? – falou Emily.
Ótimo, o cara sabia falar difícil, mas e daí? Isso só fazia dele um cara mais perdedor ainda.
- É instigante, mas não podemos garantir que os humanos do futuro estejam realmente certos. Pelo que entendi, algo pode ter mudado na nossa época pois o simples fato de sabermos destes acontecimentos já pode mudar a trajetória normal dos fatos no tempo. De qualquer forma, tentarei sintonizar este canal ainda hoje. Relatarei como foi a experiência amanhã. Até lá, passem bem.
Emily e eu trocamos olhares. Ela sorri aquele sorriso de sempre, com uma cara de “missão cumprida”.
- Espere! A gente ainda nem sabe teu nome – disse Ray.
- Eu sou Dwight Elliot e estou no segundo ano. Agora, se não se importam, preciso MESMO capturar este Totomon.
Ótimo. Mais um perdedor para nosso grupo.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Reflexo

Eu me amo - isto não é vaidade.
Me amo como amaria outra pessoa.
É uma relação conturba
repleta de crises, dramas, exigências e acusações infundadas.
Eu me odeio
Mas, no fundo, sei que me amo
E que não posso viver sem mim.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O fim do mundo, cap. 15

Ben e eu estávamos em uma enrascada. E das grandes.
- Watchosk! Carter! Eu sei que estão por aí! Apareçam, seus maricas! – gritou Budd Tysel do meio do pátio de nossa escola.
- Vcs podem fugir, mas não podem se esconder, ehehe – falou Spike, o louro fanfarrão.
- Não é o contrário? Digo: “Vcs podem se esconder, mas não podem fugir”? Por que, tipo assim, os caras já se esconderam – corrigiu Billie Joe.
- Calem a boca, idiotas, e procurem os frangotes! – urrou Budd para seus comparsas.
Tudo começou quando, acidentalmente, Ben e eu nos deparamos com os valentões durante o intervalo. A gente não pagava a taxa de segurança desde que nos tornamos Escolhidos, e Budd não gostava nada disso. O cara deixou claro: na saída da aula, ou a gente pagava os cinco meses atrasados – e com juros – ou a gente levaria a maior surra de nossas vidas. Eu não tava inclinado a nenhuma destas alternativas, então peguei Ben e decidi me esconder atrás do ginásio. O problema é que o gordo, como o bom gordo que era, se atrasou na hora da corrida até o esconderijo, o que fez com que Spike pudesse perceber um vulto se refugiando atrás do ginásio. Nesse momento, os caras se dirigiam até onde estávamos. Era nosso fim.
- Viu, gordo?! Se vc não corresse feito uma velha, a gente podia ter escapado ileso! – reclamei, sussurrando.
Ben não respondia. Só suava como um porco ofegante devido à corrida e observava a situação. Continuei:
- E agora, o que a gente vai fazer? Droga, o que deu em mim? Por que foi que eu te trouxe comigo? Eu já podia ter pulado a cerca e, neste momento, estaria fazendo algumas manobras com meu skate, mas não! Eu tinha que tentar salvar a tua pele também! Agora vamos apanhar juntos! Ótimo, não é, Ben?
O gordo apenas olhava para baixo, pensativo. Ainda ofegando ruidosamente, claro.
- Eu sei que estão aí, atrás do ginásio. Saiam logo, ou iremos nós até aí! – gritou Budd. Aquilo era terrível. Eu continuava a dar sermão no Ben, até que ele, de repente, falou:
- Max, corre pra longe daqui. Eu atraso os caras.
- O quê???
Após falar isso, Ben saiu lentamente de nosso esconderijo. O gordo só podia ter ficado maluco. Bem, era melhor para mim. Agora bastava correr até o fim do beco e pular a cerca de sempre. Os caras iriam levar um bom tempo aplicando o cuecão no Ben (se é que os caras, desta vez, se limitariam a isso), então eu estava a salvo. Eu estava livre para fugir. Era bem o meu feitio fugir numa hora dessas, mas algo me fez permanecer lá, escondido. É claro que eu não iria pular para fora daquele cantinho atrás do ginásio por nada nesse mundo, mas eu quis, desesperadamente, saber o que aconteceria com o gordo. Talvez fosse só curiosidade. Talvez eu quisesse apenas ver uma briga. Ou talvez...
- Olha só o que temos por aqui! Watchosk, seu filho da mãe! Cadê o Carter? – perguntou Budd enquanto ele e seus capangas se aproximavam lentamente do pobre gordo, formando um circulo em volta dele pra que não pudesse fugir.
- O Max já foi embora. Deixem ele fora da jogada. Sou eu que vcs querem. Podem me bater. Eu não me importo.
Aquele gordo devia ter um parafuso a menos pra não se importar em levar uma bela surra e mais um cuecão pra finalizar. Por que é que ele sempre tentava bancar o durão? Budd fez uma cara de poucos amigos ao ouvir o que Ben falou. Pegou-o pelo colarinho e disse:
- Não desta vez, Watchosk. Acha mesmo que te bater vai anular cinco meses de atraso no pagamento da taxa? Mesmo se anulasse, acha mesmo que anulará, também, os cinco meses de atraso do Carter? A gente vai te bater, sim, mas a dívida continua a mesma. Além do mais, tem uma coisinha que o teu amiguinho precisa explicar melhor pra gente.
Aquilo não me cheirava bem. Tratei de me esconder melhor e continuei a ouvir.
- Dizem por aí que o Carter ta montando uma gangue barra pesada. Uns caras que se reúnem na casa abandonada do velho McCain pra fazer rituais de magia negra, brincadeiras de invocação com copos, canetas e essas coisas idiotas. Quem aquele perdedor pensa que é? Montando uma gangue na MINHA escola, bem debaixo do meu nariz?! O idiota precisa aprender uma lição. Quem manda nessa escola sou eu! – gritou o bully dando de dedo na cara do Ben. Por que é que sempre sobrava pra mim? E qual era a daqueles boatos idiotas? Rituais de magia negra? Agora eu tava mesmo ferrado. De repente, POW! O Budd acertou um soco bem na cara do Ben. O golpe fez um barulho absurdo que doeu até em mim. O gordo caiu todo torto no chão.
- Ei Budd, vamos dar um cuecão nele! – falou Billie Joe.
- Não. Desta vez o negócio vai ser diferente. Vamos acabar com esse gordo – Budd parecia sério. Pensei duas vezes e conclui que era melhor dar o fora daquele lugar o quanto antes. Os caras logo iam acabar com a raça do Bem e, fosse o que fosse que me manteve ali até aquele momento, não me mantinha mais. Levar um soco como aquele de graça? Sem chance!
Eis que, quando eu já estava com as mãos na grade, pronto pra fugir, escuto um barulho violento e abafado. Os valentões ficam em silêncio. Apontei até a borda do ginásio pra ver o que era: Johnny acabava de chegar, e o barulho se tratava de um soco que o mesmo acabava de acertar na parede. O cara tava com um cigarro na boca (em meio ao pátio da escola!). Budd e seus amigos mudaram de expressão de uma hora para a outra; de arrogantes a assustados. Johnny, calmamente, toma seu cigarro da boca, larga no chão, pisa e amassa devagar. Olha mais uma vez pros fanfarrões e diz com toda a calma do mundo:
- Sabem? Eu adoro uma boa briga. Boa briga é briga justa. Já me meti em tanta briga que nem lembro mais. E sabem o que eu mais odeio? Idiotas covardes como vc, Budd Tysel, que precisa de gangue pra bater em gente mais nova. Seu bando de perdedores filhos da mãe!
Nessa hora, Johnny se exalta e dá uma cuspida no chão, olhando para os vilões. Aquilo era um insulto muito sério. Budd e seus comparsas observavam boquiabertos. Johnny continua:
- E sabe do que mais? Valentões como vcs são, normalmente, o que eu como no jantar – Johnny tira a jaqueta de couro com muita calma. Joga-a para o canto, ergue os pulsos e aponta suas mãos fechadas para os fanfarrões – Quem é o primeiro? Ou melhor, por que não vêm os três juntos? Pra mim não faz diferença nenhuma. O diretor vive dizendo que eu sou um inútil. Pra provar o contrário, vou limpar o chão deste pátio com suas caras feias. Aposto que todo mundo da escola vai ficar muito feliz com isso. Vamos! Podem vir!
Os valentões trocam olhares duvidosos.
- Não temos medo de vc, Johnny Jones. Este colégio é nosso! O que estão esperando, seus babacas. Peguem ele! – gritou Budd para seus capangas. Spike foi o primeiro a responder:
- Vc ta brincando?? Vc não viu o que dizem por ai? Dizem que Johnny Jones trás sempre consigo um canivete ou até mesmo uma arma de fogo! Nem sonhando! O cara é osso duro!
- É. Dizem até que ele já matou um cara. Bate nele vc que é o líder – diz Billie Joe.
- Eu vou é dar o fora daqui! – gritou Spike, já dando as costas e batendo em retirada.
- Ei, espere por mim! – e Billie Joe seguiu o amigo covarde.
- Droga, seus idiotas! Voltem aqui! – ordenou Budd, mas sem chances daquilo acontecer.
De repente, era apenas Budd e Johnny. Aquela, sem duvida, seria uma briga espetacular! Melhor ainda que Johnny e Ray. Ainda bem que não fugi. Infelizmente, a briga não aconteceu. Budd disse:
- Desta vez passa. Mas fique sabendo, Johnny Jones: eu sei que vc saiu dos Caveiras. Não sei o que dá num cara pra sair da gangue mais temida da cidade. Só sei que o teu reinado acabou no momento em que deixou a gangue. Teu tempo já era. Agora, o dono desta escola sou eu, Budd Tysel! E da próxima vez a gente vai acertar as contas – e correu atrás de seus comparsas. Quem diria que Johnny era tão durão assim? Se eles soubessem da reação do cara na casa do velho McCain...
Johnny foi até Ben e estendeu a mão. O gordo virou a cara e disse:
- Eu não precisava da tua ajuda.
- Droga, garoto, o que deu em vc? Seu covarde! Por que não reagiu? Eles iam te bater de qualquer jeito – perguntou Johnny furioso.
Ben olhava apenas para o chão. Limpou o sangue que escorria pela boca com a manga da blusa e disse:
- Não é da tua conta.
Nesta hora, Johnny ergueu o punho violentamente como se fosse acertar um soco no coitado, que só fechou os olhos e virou a cara. Foi uma situação bem parecida com aquela vez, quando conhecemos Johnny. É claro que não rolou soco nenhum. Johnny apenas ameaçou pra ver a reação do Ben.
- Escuta garoto: eu sei que vc não quer brigar com ninguém, mas não é a gente que escolhe essas coisas. Às vezes, a gente precisa brigar pra ganhar respeito e evitar uma porção de outras brigas.
Ben abriu um dos olhos para se certificar de que saíra ileso do soco de Johnny.
- E daí? Não me importo – respondeu Ben de forma brusca, mas quase sussurrada. O cara era corajoso mesmo. Quase levou um soco do Johnny e agora bancava o durão. Se fosse eu, concordaria automaticamente com toda aquela lição de moral do Johnny só pra que acabasse mais rápido. É sempre assim que eu lido com broncas dos meus pais. O importante é encurtar o incomodo, por que acabar com ele, na maioria das vezes, incomoda ainda mais. Johnny acertou um tapa na cabeça do Ben. Nada muito sério. Só um tapa.
- Ai! Qual é a tua?
- Olha só, garoto, eu vi o que vc fez. Eu sei que o Max ta escondido ali. Vi que vc ia se sacrificar pra poupar o teu amigo. Isso é legal, mas eu não posso deixar que um cara que tem andado comigo seja zoado por um bando de perdedores como Budd Tysel e sua turma. Isso acabaria com a minha reputação, entende?
E eu que pensei estar bem escondido? Por via das dúvidas, preferi continuar ali, seguro em meu esconderijo.
- Ei Max, não ouviu? Pode sair daí. O idiota já foi embora! – gritou Johnny olhando para minha direção. Que porcaria de esconderijo era aquele! Sai com minha habitual cara de idiota.
- O negócio é o seguinte, galera: a Emily me pediu pra lembrá-los de que hoje é terça feira, ou seja, o dia da reunião semanal dos Escolhidos no galpão do McCain. Isso é um saco. Por que a Emily não sossega um pouco? Bem, de qualquer jeito, será uma boa oportunidade para nossas aulas, não acha, carinha? – Johnny olhou para Ben com um sorriso de meia boca. O gordo apenas fazia uma cara idiota de “Aulas? Do que é que vc ta falando?”.
- Isso mesmo. Aulas de autodefesa! Ah, qual é. Não me olhe com essa cara de criança gordinha que não ganhou chocolate. Vai ser importante pra vc. E se, na próxima vez, eu não estiver por perto? Quem vai proteger o Max? De qualquer jeito, é melhor que seja vc. O Max não tem cara de ser bom de briga, ahuahua.
Apenas fiquei em silêncio. Claro, vamos todos zoar o Max! Aquele dia foi uma droga. Nem ao menos pude assistir a briga entre Johnny e Budd! Eu não podia imaginar, mas ainda veria brigas muito mais emocionantes que esta. Aquela história não tava nem na metade.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Schwarzenegger

Uma terra vazia de significado.
Mil significações diferentes = 0
Este sou eu e você também.
Você, daqui,
Sabe o que é estar preso num cubo mágico
Eis a nova linguagem, que como queriam os lingüistas da nova leva
Não diz nada.
Absolutamente nada. E não há nada melhor que isso.
{nós [você (eu) eu] ...}
“Sabe? Não há teoria que supere a solidão” – vã filosofia.
“...”
And you know there’s no meaning at all
E isso conforta teus impulsos estéticos
Mas no fundo, não há pé nem cabeça.
Não há começo nem fim.
Infinito. Isso dói.
Como em teus sonhos, mas na realidade.
: falando nisso, e pensar que eu tive uma porra de sonho com o Schwarzenegger, gordo, fazendo drama.
Isso sim é que não faz sentido nenhum.
Who cares?


G

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O fim do mundo, cap. 14

- Droga Emily, é isso que vc chama de base secreta? – perguntou Johnny irritado.
- Desculpa gente, mas acho que não vou com vcs. Esse lugar parece assustador... – comentou Claire.
- Vamos lá gente, vai ser divertido! Pensem que será uma grande aventura. Aposto que é nisso que vc ta pensando, não é, Emily? – perguntou Ray.
- Acho apenas que este pode ser um bom quartel general – respondeu a garota.
- Vcs não tem nada melhor pra fazer do que invadir propriedade alheia? A temporada de provas está quase chegando e vcs, ao invés de estudarem, preferem caçar fantasmas em uma mansão idiota? – protestou Ashley.
Ben apenas observava a discussão.
Era uma tarde ensolarada de sábado. Estávamos em frente ao casarão do velho McCain. Eu fui o primeiro a chegar, seguido de Ben, que morava ali perto, Emily, Ray e Ashley que estavam sempre juntos, Johnny e por última Claire, que veio com o motorista particular que voltaria para buscá-la às seis horas. Tínhamos bastante tempo até anoitecer, mas já havíamos perdido boa parte deste tempo discutindo a situação. Aquilo era um saco, sem falar que tava um calor dos diabos.
- Caso não saibam, o casarão do velho McCain é assombrado. Nem mesmo quando era líder dos Caveiras eu ousava entrar num lugar destes, aliás, ninguém ousava – disse Johnny.
- Ora, deixe de ser ingênuo! Fantasmas não existem – explicou Ashley.
- Talvez, mas prefiro não pagar pra ver. Sabem da história? Tudo começou há dez anos atrás. O velho McCain morava neste casarão com sua esposa. Até que, um dia, o velho descobriu que sua mulher o traía com o leiteiro. Sabendo disso, ele a matou com um cutelo, cortou seu corpo em treze pedaços e os escondeu entre o concreto das novas paredes da casa que estava em reformas. Até hoje ainda se vê manchas em forma dos membros da mulher nas paredes... – contou Johnny com uma voz sufocada e uma cara suspeita.
- Pare Johnny, por favor. Se vc continuar, aí sim que não entro nessa casa de jeito nenhum! – disse a pobre Claire. De fato, assim como naquele sonho, ela era a mais medrosa entre nós.
- Mas não é só isso! – continuou Johnny – Dizem que até hoje o fantasma da mulher do velho McCain vaga pelos cômodos do casarão, vestindo uma longa camisola branca manchada de sangue, lamentado, chorando e procurando seus membros perdidos. – disse Johnny pausadamente, fazendo caretas e se aproximando de Claire lentamente.
- Pára Johnny. Não tem graça! – reclamou a garota fazendo bico e se encolhendo. O fanfarrão apenas riu.
- E o que houve com o velho McCain? Foi preso? – perguntou Emily.
- Esta é a grande questão! O que poderia ter acontecido ao velho McCain? Após a morte da esposa, o velho sumiu misteriosamente. Ninguém sabe se ele foi embora para algum lugar fora do país, a fim de fugir da polícia, ou se sua esposa não teria se vingado, matando-o e espalhando seus membros pelo porão... – disse Johnny fazendo a mesma performance, com pausas e tudo, mas, desta vez, para Emily. Não deu certo. A garota continuou a encará-lo da forma mais indiferente possível.
- Será possível que todos vcs sejam idiotas ao ponto de acreditar numa baboseira destas? Só falta acreditarem também em papai-noel e coelhinho da páscoa – reclamou Ashley ajeitando seus óculos.
- Isso parece ser uma aventura e tanto! Já pensou se a gente encontra fantasmas de verdade, heim Max? – me perguntou Ray todo bobalhão. Aquilo era um tédio.
- Pois é.
- Vc também acredita em fantasmas, Max? – perguntou Claire.
- Sei lá. Nunca pensei a respeito.
- Ora, vamos. Não me diga que até vc acredita em uma coisa dessas? – perguntou Ashley. Apenas dei de ombro. Não entendi o que ela quis dizer com “até vc”. Será que eu, só por ser o terrível líder e planejador de toda aquela palhaçada, não podia acreditar em fantasmas? Também não entendia por que Ashley desconfiava tanto de mim, afinal, quem inventava a maioria das idiotices que fazíamos era a Emily.
Ray, antes que qualquer um pudesse protestar, foi até a porta e puxou a manivela.
- O que foi? – perguntou Johnny.
- Não consigo abrir. Parece que tem algo prensando a porta. Se pelo menos pudéssemos passar um de nós para o lado de dentro, aposto que conseguiríamos entrar por aqui.
- Bem, deixa isso comigo. Invasão de propriedade privada é comigo mesmo! – comentou Johnny com um sorrisinho malandro. Ashley apenas virou a cara.
Após dizer isso, Johnny, com uma destreza impressionante, escalou rápido e cuidadosamente uma grande árvore que havia ao lado da casa. Rastejou por um galho até se aproximar o suficiente de uma calha velha e enferrujada que descia do teto. Se jogou e apanhou a calha, que fez um barulho esquisito e pendeu pra um dos lados.
- Cuidado! – gritou Claire. Todos nós quase arremessamos o coração pela boca quando aquele ferro ameaçou cair, mas apenas entortou um pouco e Johnny, sem mais empecilhos, escalou a calha até a janela do andar de cima que estava entreaberta e se esgueirou para dentro do casarão.
- Este garoto é idiota, por acaso? Se ele caísse dessa altura, poderia até quebrar a coluna – reclamou Ashley.
- Não fale assim do cara. Ele é muito corajoso. Ta fazendo isso pela gente – respondeu Ray com aquele sorriso idiota de sempre.
- Precisamos nos apressar. Os vizinhos logo vão perceber que tem algo estranho acontecendo aqui – disse Emily. Ela tava certa e eu também tava morrendo de preocupação com isso. Imagine só se chamassem a polícia? Era só o que faltava.
Esperamos até que Johnny desse algum sinal se vida. Depois de esperar alguns minutos, escutamos alguns barulhos estranhos que pareciam vir do lado de dentro da porta. Claire estava branca de medo. Não é à toa. Imagina só, a pop star do momento, presa por invasão de propriedade privada?
- Johnny, é vc? – perguntou Ray.
Nenhuma resposta. A porta só se abriu lenta e misteriosamente, fazendo um ruído típico de porta de mansão mal assombrada. Estávamos do lado de dentro, mas havia um problema.
- Gente, cadê o Johnny? – perguntou Claire.
- Não está em nenhum lugar que eu possa ver. Olhem só, devia ser isto que trancava a porta – disse Ray, abaixando-se para pegar do chão, ao pé da porta, um pé-de-cabra todo enferrujado. O trinco era antigo e tinha aquelas aberturas pra encaixar algo que prenda a porta à parede.
- Se Johnny não está aqui, acho que podemos concluir que não foi ele quem abriu esta porta para nós – disse Emily de forma bastante calma.
- Mas se não foi o Johnny, então quem foi que nos deixou entrar? – perguntou Ray de forma entrecortada. A pobre Claire empalideceu mais ainda.
- Ai gente, vamos embora daqui! Este lugar me dá arrepios.
- Não podemos sair agora. Não sem antes encontrar o Johnny – respondeu Emily.
- Ora, façam-me o favor, não sejam ridículos! É obvio que ele, como o bobalhão que é, está querendo nos pregar uma bela duma peça – disse Ashley de braços cruzados e aquela habitual carinha de nojo.
- A Emily tem razão, vamos nessa – confirmou Ray.
A porta de entrada dava direto a um salão grande, com poucos móveis como um sofá velho e alguns quadros idiotas de gente velha. Havia uma entrada à nossa esquerda que dava pra uma cozinha suja e abandonada que devia estar cheia de ratos e à nossa direita havia uma porta grande que estava fechada, sem contar que à nossa frente havia um lance de escadarias que parecia que se desintegraria a qualquer momento.
- Johnny provavelmente ainda está no andar de cima – comentou Emily.
- Quem sabe? É melhor não arriscar. Essas escadas não me parecem a coisa mais confiável do mundo... – falei.
- Mas e quanto ao Johnny? E se ele estiver lá em cima? Estou preocupada com ele – disse Claire.
- Eu não subo essas escadas idiotas de jeito nenhum! O Johnny que se vire. Não é ele o senhor “experiente em invasão de propriedade privada”? – falei fazendo as aspas com os dedos.
- O que há com vc, seu babaca? Não se preocupa com o seu amigo? Vc é mais egoísta que eu pensava. Não é a “amizade” tua virtude? – me respondeu a Ashley de forma grosseira, também fazendo as suas aspas com os dedos. Mas droga, não era ela mesma quem desprezava o Johnny? Não era ela mesma quem acabava de dizer que ele, provavelmente, estava planejando uma emboscada pra gente? Resolvi me calar. Até que o bobalhão do Ray teve uma idéia genial:
- Já sei galera: vamos nos separar!
Aquilo só podia ser brincadeira.
- Separar o caramba! Vc ta pensando que isso é um capítulo do Scooby-Doo? – perguntei revoltado.
- Huahuaa... Calma Max. Era só uma brincadeira!
- Gente, vamos logo. To com um mau presse... – dizia Claire, até ser interrompida por um:
- BAAAHHHHHH!
Era uma coisa branca e flutuante que se aproximou aos poucos enquanto estivemos ocupados discutindo. A coitada da garota quase teve um tréco. Ray se apressou em tomar o pé-de-cabra que pegou do chão e brandi-lo contra o suposto fantasma, mas antes que pudesse acertá-lo, o ser desconhecido riu de uma forma familiar para, então, se revelar. Era apenas Johnny coberto por um lençol branco. O idiota ria de uma forma toda fanfarrona.
- Hauhauha... Cara, isso foi demais! Vcs precisavam ter visto suas próprias caras. Foi hilário, huahuaa...
- Droga, seu inútil. Veja só o que vc fez com a garota aqui? – disse Ashley apontando pra Claire, que estava pálida como um fantasma.
- É, Johnny, isso não teve graça! – reclamou a garota.
- Ah, qual é galera? Vão me dizer que tão com medo dessa casa? Porque se for isso... – dizia Johnny, até ser interrompido mais uma vez.
- Quem está ai? – gritou uma voz desconhecida.
Da escada descia nada menos que um velho decrépito, vestindo ceroulas vermelhas, um capacete do exército, pantufas, uns óculos fundo de garrafa e apontando para nós uma espingarda. Aquilo só podia ser sacanagem. Claire deu um grito e se abraçou com toda a força ao Ray. Droga, por que ele? Eu estava até mais perto dela do que o cara. Isso gerou um olhar assassino de Ashley direcionado à menina medrosa. Não sei do que ela deveria ter mais medo: se do fantasma ou da nossa terrível presidente do grêmio estudantil. Ray apenas abraçou Claire com um dos braços e com o outro brandiu seu fiel pé-de-cabra contra o velho esquisito. Emily e Ben apenas observavam a situação enquanto eu estava paralisado de medo. É claro que nunca contei isso a ninguém, mas aquela foi outra situação em que quase molhei minhas calças. No entanto, a reação mais inesperada foi, de longe, a do Johnny, que se encolhia e gritava:
- É o fantasma do velho McCain! O cara tem uma espingarda! Salve-se quem puder! Ele vai nos matar. Ele vai nos matar! – e se arremessou para trás do sofá com a mesma destreza e rapidez com que escalou aquela maldita casa. Droga, aquele era o valentão que fazia os alunos de nossa escola ter pesadelos? O cara não passava de um frangote quando o assunto era o sobrenatural. O velho começou a gritar histericamente:
- Malditos vietcongs! Procurando emboscar o velho McCain, não é? É melhor que pensem duas vezes, seus filhos da mãe, pois este ianque aqui dorme com um olho fechado e o outro aberto. Saibam que estão lidando com um veterano, seus malditos comunistas!
O fantasma maluco gritava apontando aquela espingarda pra tudo o que é lado. A pobre Claire só chorava e dizia:
- Desculpe! Desculpe! Por favor, não nos mate. Nós vamos embora, por favor! A gente promete que nunca mais volta aqui. Deixa a gente ir embora, por favor!
Johnny continuava atrás do sofá gritando:
- O velho tem uma arma. Ele vai nos matar! Ele vai nos matar!
Aquela era, sem duvida, uma situação horrível. Eu tentava dizer alguma coisa, mas estava completamente paralisado. Pensei em correr e deixar todo mundo pra trás, mas minhas pernas endureceram. Foi quando Emily, que, até o presente momento, não havia esboçado expressão alguma, dá um passo a frente e começa a falar daquela forma calma de sempre:
- Sentimos muito por incomodar seu sono eterno, fantasma do velho McCain, mas o assunto que viemos tratar é de grande importância para todos os seres da Terra, incluindo os seres espirituais. Fontes seguras nos revelaram que, no ano de 2020, seres alienígenas com poderes psíquicos invadirão nosso planeta através de um portal interdimensional que se abrirá graças ao alinhamento dos planetas de nossa galáxia. Os únicos que podem evitar isto somos nós, os Escolhidos. O fato é que precisamos de um quartel general, e estamos convocando o senhor para nossa empreitada. Precisamos da sua casa para isso. Espero que compreenda esta situação. É uma guerra e o destino da Terra está em jogo.
A Emily falou toda aquela bobagem pro velho. Todos nós, os demais Escolhidos, trocávamos olhares assustados. Aquilo não podia dar certo. Com certeza seria o nosso fim. O velho encarava Emily e apontava para ela sua espingarda trêmula devido aos braços velhos. A garota não titubeia e mantém a mesma expressão indiferente. Até que o velho abaixa a espingarda (que mais tarde descobriríamos que nem ao menos funcionava), estala os dedos e diz:
- Esses malditos vietcongs! Não é à toa que ganharam a guerra. Eu sempre soube que estavam de conluio com os marcianos. Aqueles alienígenas filhos da mãe! Malditos bolcheviques!
Ficamos absolutamente boquiabertos. Aquilo não podia ser verdade.
- Mas será possível que vcs não percebem? Isso não é fantasma porcaria nenhuma. É só um velho gagá – disse Ashley revoltada.
Os caras só podiam tá de sacanagem pra cima de mim.