quinta-feira, 19 de novembro de 2009
terça-feira, 17 de novembro de 2009
O fim do mundo, cap. 14
- Droga Emily, é isso que vc chama de base secreta? – perguntou Johnny irritado.
- Desculpa gente, mas acho que não vou com vcs. Esse lugar parece assustador... – comentou Claire.
- Vamos lá gente, vai ser divertido! Pensem que será uma grande aventura. Aposto que é nisso que vc ta pensando, não é, Emily? – perguntou Ray.
- Acho apenas que este pode ser um bom quartel general – respondeu a garota.
- Vcs não tem nada melhor pra fazer do que invadir propriedade alheia? A temporada de provas está quase chegando e vcs, ao invés de estudarem, preferem caçar fantasmas em uma mansão idiota? – protestou Ashley.
Ben apenas observava a discussão.
Era uma tarde ensolarada de sábado. Estávamos em frente ao casarão do velho McCain. Eu fui o primeiro a chegar, seguido de Ben, que morava ali perto, Emily, Ray e Ashley que estavam sempre juntos, Johnny e por última Claire, que veio com o motorista particular que voltaria para buscá-la às seis horas. Tínhamos bastante tempo até anoitecer, mas já havíamos perdido boa parte deste tempo discutindo a situação. Aquilo era um saco, sem falar que tava um calor dos diabos.
- Caso não saibam, o casarão do velho McCain é assombrado. Nem mesmo quando era líder dos Caveiras eu ousava entrar num lugar destes, aliás, ninguém ousava – disse Johnny.
- Ora, deixe de ser ingênuo! Fantasmas não existem – explicou Ashley.
- Talvez, mas prefiro não pagar pra ver. Sabem da história? Tudo começou há dez anos atrás. O velho McCain morava neste casarão com sua esposa. Até que, um dia, o velho descobriu que sua mulher o traía com o leiteiro. Sabendo disso, ele a matou com um cutelo, cortou seu corpo em treze pedaços e os escondeu entre o concreto das novas paredes da casa que estava em reformas. Até hoje ainda se vê manchas em forma dos membros da mulher nas paredes... – contou Johnny com uma voz sufocada e uma cara suspeita.
- Pare Johnny, por favor. Se vc continuar, aí sim que não entro nessa casa de jeito nenhum! – disse a pobre Claire. De fato, assim como naquele sonho, ela era a mais medrosa entre nós.
- Mas não é só isso! – continuou Johnny – Dizem que até hoje o fantasma da mulher do velho McCain vaga pelos cômodos do casarão, vestindo uma longa camisola branca manchada de sangue, lamentado, chorando e procurando seus membros perdidos. – disse Johnny pausadamente, fazendo caretas e se aproximando de Claire lentamente.
- Pára Johnny. Não tem graça! – reclamou a garota fazendo bico e se encolhendo. O fanfarrão apenas riu.
- E o que houve com o velho McCain? Foi preso? – perguntou Emily.
- Esta é a grande questão! O que poderia ter acontecido ao velho McCain? Após a morte da esposa, o velho sumiu misteriosamente. Ninguém sabe se ele foi embora para algum lugar fora do país, a fim de fugir da polícia, ou se sua esposa não teria se vingado, matando-o e espalhando seus membros pelo porão... – disse Johnny fazendo a mesma performance, com pausas e tudo, mas, desta vez, para Emily. Não deu certo. A garota continuou a encará-lo da forma mais indiferente possível.
- Será possível que todos vcs sejam idiotas ao ponto de acreditar numa baboseira destas? Só falta acreditarem também em papai-noel e coelhinho da páscoa – reclamou Ashley ajeitando seus óculos.
- Isso parece ser uma aventura e tanto! Já pensou se a gente encontra fantasmas de verdade, heim Max? – me perguntou Ray todo bobalhão. Aquilo era um tédio.
- Pois é.
- Vc também acredita em fantasmas, Max? – perguntou Claire.
- Sei lá. Nunca pensei a respeito.
- Ora, vamos. Não me diga que até vc acredita em uma coisa dessas? – perguntou Ashley. Apenas dei de ombro. Não entendi o que ela quis dizer com “até vc”. Será que eu, só por ser o terrível líder e planejador de toda aquela palhaçada, não podia acreditar em fantasmas? Também não entendia por que Ashley desconfiava tanto de mim, afinal, quem inventava a maioria das idiotices que fazíamos era a Emily.
Ray, antes que qualquer um pudesse protestar, foi até a porta e puxou a manivela.
- O que foi? – perguntou Johnny.
- Não consigo abrir. Parece que tem algo prensando a porta. Se pelo menos pudéssemos passar um de nós para o lado de dentro, aposto que conseguiríamos entrar por aqui.
- Bem, deixa isso comigo. Invasão de propriedade privada é comigo mesmo! – comentou Johnny com um sorrisinho malandro. Ashley apenas virou a cara.
Após dizer isso, Johnny, com uma destreza impressionante, escalou rápido e cuidadosamente uma grande árvore que havia ao lado da casa. Rastejou por um galho até se aproximar o suficiente de uma calha velha e enferrujada que descia do teto. Se jogou e apanhou a calha, que fez um barulho esquisito e pendeu pra um dos lados.
- Cuidado! – gritou Claire. Todos nós quase arremessamos o coração pela boca quando aquele ferro ameaçou cair, mas apenas entortou um pouco e Johnny, sem mais empecilhos, escalou a calha até a janela do andar de cima que estava entreaberta e se esgueirou para dentro do casarão.
- Este garoto é idiota, por acaso? Se ele caísse dessa altura, poderia até quebrar a coluna – reclamou Ashley.
- Não fale assim do cara. Ele é muito corajoso. Ta fazendo isso pela gente – respondeu Ray com aquele sorriso idiota de sempre.
- Precisamos nos apressar. Os vizinhos logo vão perceber que tem algo estranho acontecendo aqui – disse Emily. Ela tava certa e eu também tava morrendo de preocupação com isso. Imagine só se chamassem a polícia? Era só o que faltava.
Esperamos até que Johnny desse algum sinal se vida. Depois de esperar alguns minutos, escutamos alguns barulhos estranhos que pareciam vir do lado de dentro da porta. Claire estava branca de medo. Não é à toa. Imagina só, a pop star do momento, presa por invasão de propriedade privada?
- Johnny, é vc? – perguntou Ray.
Nenhuma resposta. A porta só se abriu lenta e misteriosamente, fazendo um ruído típico de porta de mansão mal assombrada. Estávamos do lado de dentro, mas havia um problema.
- Gente, cadê o Johnny? – perguntou Claire.
- Não está em nenhum lugar que eu possa ver. Olhem só, devia ser isto que trancava a porta – disse Ray, abaixando-se para pegar do chão, ao pé da porta, um pé-de-cabra todo enferrujado. O trinco era antigo e tinha aquelas aberturas pra encaixar algo que prenda a porta à parede.
- Se Johnny não está aqui, acho que podemos concluir que não foi ele quem abriu esta porta para nós – disse Emily de forma bastante calma.
- Mas se não foi o Johnny, então quem foi que nos deixou entrar? – perguntou Ray de forma entrecortada. A pobre Claire empalideceu mais ainda.
- Ai gente, vamos embora daqui! Este lugar me dá arrepios.
- Não podemos sair agora. Não sem antes encontrar o Johnny – respondeu Emily.
- Ora, façam-me o favor, não sejam ridículos! É obvio que ele, como o bobalhão que é, está querendo nos pregar uma bela duma peça – disse Ashley de braços cruzados e aquela habitual carinha de nojo.
- A Emily tem razão, vamos nessa – confirmou Ray.
A porta de entrada dava direto a um salão grande, com poucos móveis como um sofá velho e alguns quadros idiotas de gente velha. Havia uma entrada à nossa esquerda que dava pra uma cozinha suja e abandonada que devia estar cheia de ratos e à nossa direita havia uma porta grande que estava fechada, sem contar que à nossa frente havia um lance de escadarias que parecia que se desintegraria a qualquer momento.
- Johnny provavelmente ainda está no andar de cima – comentou Emily.
- Quem sabe? É melhor não arriscar. Essas escadas não me parecem a coisa mais confiável do mundo... – falei.
- Mas e quanto ao Johnny? E se ele estiver lá em cima? Estou preocupada com ele – disse Claire.
- Eu não subo essas escadas idiotas de jeito nenhum! O Johnny que se vire. Não é ele o senhor “experiente em invasão de propriedade privada”? – falei fazendo as aspas com os dedos.
- O que há com vc, seu babaca? Não se preocupa com o seu amigo? Vc é mais egoísta que eu pensava. Não é a “amizade” tua virtude? – me respondeu a Ashley de forma grosseira, também fazendo as suas aspas com os dedos. Mas droga, não era ela mesma quem desprezava o Johnny? Não era ela mesma quem acabava de dizer que ele, provavelmente, estava planejando uma emboscada pra gente? Resolvi me calar. Até que o bobalhão do Ray teve uma idéia genial:
- Já sei galera: vamos nos separar!
Aquilo só podia ser brincadeira.
- Separar o caramba! Vc ta pensando que isso é um capítulo do Scooby-Doo? – perguntei revoltado.
- Huahuaa... Calma Max. Era só uma brincadeira!
- Gente, vamos logo. To com um mau presse... – dizia Claire, até ser interrompida por um:
- BAAAHHHHHH!
Era uma coisa branca e flutuante que se aproximou aos poucos enquanto estivemos ocupados discutindo. A coitada da garota quase teve um tréco. Ray se apressou em tomar o pé-de-cabra que pegou do chão e brandi-lo contra o suposto fantasma, mas antes que pudesse acertá-lo, o ser desconhecido riu de uma forma familiar para, então, se revelar. Era apenas Johnny coberto por um lençol branco. O idiota ria de uma forma toda fanfarrona.
- Hauhauha... Cara, isso foi demais! Vcs precisavam ter visto suas próprias caras. Foi hilário, huahuaa...
- Droga, seu inútil. Veja só o que vc fez com a garota aqui? – disse Ashley apontando pra Claire, que estava pálida como um fantasma.
- É, Johnny, isso não teve graça! – reclamou a garota.
- Ah, qual é galera? Vão me dizer que tão com medo dessa casa? Porque se for isso... – dizia Johnny, até ser interrompido mais uma vez.
- Quem está ai? – gritou uma voz desconhecida.
Da escada descia nada menos que um velho decrépito, vestindo ceroulas vermelhas, um capacete do exército, pantufas, uns óculos fundo de garrafa e apontando para nós uma espingarda. Aquilo só podia ser sacanagem. Claire deu um grito e se abraçou com toda a força ao Ray. Droga, por que ele? Eu estava até mais perto dela do que o cara. Isso gerou um olhar assassino de Ashley direcionado à menina medrosa. Não sei do que ela deveria ter mais medo: se do fantasma ou da nossa terrível presidente do grêmio estudantil. Ray apenas abraçou Claire com um dos braços e com o outro brandiu seu fiel pé-de-cabra contra o velho esquisito. Emily e Ben apenas observavam a situação enquanto eu estava paralisado de medo. É claro que nunca contei isso a ninguém, mas aquela foi outra situação em que quase molhei minhas calças. No entanto, a reação mais inesperada foi, de longe, a do Johnny, que se encolhia e gritava:
- É o fantasma do velho McCain! O cara tem uma espingarda! Salve-se quem puder! Ele vai nos matar. Ele vai nos matar! – e se arremessou para trás do sofá com a mesma destreza e rapidez com que escalou aquela maldita casa. Droga, aquele era o valentão que fazia os alunos de nossa escola ter pesadelos? O cara não passava de um frangote quando o assunto era o sobrenatural. O velho começou a gritar histericamente:
- Malditos vietcongs! Procurando emboscar o velho McCain, não é? É melhor que pensem duas vezes, seus filhos da mãe, pois este ianque aqui dorme com um olho fechado e o outro aberto. Saibam que estão lidando com um veterano, seus malditos comunistas!
- Desculpa gente, mas acho que não vou com vcs. Esse lugar parece assustador... – comentou Claire.
- Vamos lá gente, vai ser divertido! Pensem que será uma grande aventura. Aposto que é nisso que vc ta pensando, não é, Emily? – perguntou Ray.
- Acho apenas que este pode ser um bom quartel general – respondeu a garota.
- Vcs não tem nada melhor pra fazer do que invadir propriedade alheia? A temporada de provas está quase chegando e vcs, ao invés de estudarem, preferem caçar fantasmas em uma mansão idiota? – protestou Ashley.
Ben apenas observava a discussão.
Era uma tarde ensolarada de sábado. Estávamos em frente ao casarão do velho McCain. Eu fui o primeiro a chegar, seguido de Ben, que morava ali perto, Emily, Ray e Ashley que estavam sempre juntos, Johnny e por última Claire, que veio com o motorista particular que voltaria para buscá-la às seis horas. Tínhamos bastante tempo até anoitecer, mas já havíamos perdido boa parte deste tempo discutindo a situação. Aquilo era um saco, sem falar que tava um calor dos diabos.
- Caso não saibam, o casarão do velho McCain é assombrado. Nem mesmo quando era líder dos Caveiras eu ousava entrar num lugar destes, aliás, ninguém ousava – disse Johnny.
- Ora, deixe de ser ingênuo! Fantasmas não existem – explicou Ashley.
- Talvez, mas prefiro não pagar pra ver. Sabem da história? Tudo começou há dez anos atrás. O velho McCain morava neste casarão com sua esposa. Até que, um dia, o velho descobriu que sua mulher o traía com o leiteiro. Sabendo disso, ele a matou com um cutelo, cortou seu corpo em treze pedaços e os escondeu entre o concreto das novas paredes da casa que estava em reformas. Até hoje ainda se vê manchas em forma dos membros da mulher nas paredes... – contou Johnny com uma voz sufocada e uma cara suspeita.
- Pare Johnny, por favor. Se vc continuar, aí sim que não entro nessa casa de jeito nenhum! – disse a pobre Claire. De fato, assim como naquele sonho, ela era a mais medrosa entre nós.
- Mas não é só isso! – continuou Johnny – Dizem que até hoje o fantasma da mulher do velho McCain vaga pelos cômodos do casarão, vestindo uma longa camisola branca manchada de sangue, lamentado, chorando e procurando seus membros perdidos. – disse Johnny pausadamente, fazendo caretas e se aproximando de Claire lentamente.
- Pára Johnny. Não tem graça! – reclamou a garota fazendo bico e se encolhendo. O fanfarrão apenas riu.
- E o que houve com o velho McCain? Foi preso? – perguntou Emily.
- Esta é a grande questão! O que poderia ter acontecido ao velho McCain? Após a morte da esposa, o velho sumiu misteriosamente. Ninguém sabe se ele foi embora para algum lugar fora do país, a fim de fugir da polícia, ou se sua esposa não teria se vingado, matando-o e espalhando seus membros pelo porão... – disse Johnny fazendo a mesma performance, com pausas e tudo, mas, desta vez, para Emily. Não deu certo. A garota continuou a encará-lo da forma mais indiferente possível.
- Será possível que todos vcs sejam idiotas ao ponto de acreditar numa baboseira destas? Só falta acreditarem também em papai-noel e coelhinho da páscoa – reclamou Ashley ajeitando seus óculos.
- Isso parece ser uma aventura e tanto! Já pensou se a gente encontra fantasmas de verdade, heim Max? – me perguntou Ray todo bobalhão. Aquilo era um tédio.
- Pois é.
- Vc também acredita em fantasmas, Max? – perguntou Claire.
- Sei lá. Nunca pensei a respeito.
- Ora, vamos. Não me diga que até vc acredita em uma coisa dessas? – perguntou Ashley. Apenas dei de ombro. Não entendi o que ela quis dizer com “até vc”. Será que eu, só por ser o terrível líder e planejador de toda aquela palhaçada, não podia acreditar em fantasmas? Também não entendia por que Ashley desconfiava tanto de mim, afinal, quem inventava a maioria das idiotices que fazíamos era a Emily.
Ray, antes que qualquer um pudesse protestar, foi até a porta e puxou a manivela.
- O que foi? – perguntou Johnny.
- Não consigo abrir. Parece que tem algo prensando a porta. Se pelo menos pudéssemos passar um de nós para o lado de dentro, aposto que conseguiríamos entrar por aqui.
- Bem, deixa isso comigo. Invasão de propriedade privada é comigo mesmo! – comentou Johnny com um sorrisinho malandro. Ashley apenas virou a cara.
Após dizer isso, Johnny, com uma destreza impressionante, escalou rápido e cuidadosamente uma grande árvore que havia ao lado da casa. Rastejou por um galho até se aproximar o suficiente de uma calha velha e enferrujada que descia do teto. Se jogou e apanhou a calha, que fez um barulho esquisito e pendeu pra um dos lados.
- Cuidado! – gritou Claire. Todos nós quase arremessamos o coração pela boca quando aquele ferro ameaçou cair, mas apenas entortou um pouco e Johnny, sem mais empecilhos, escalou a calha até a janela do andar de cima que estava entreaberta e se esgueirou para dentro do casarão.
- Este garoto é idiota, por acaso? Se ele caísse dessa altura, poderia até quebrar a coluna – reclamou Ashley.
- Não fale assim do cara. Ele é muito corajoso. Ta fazendo isso pela gente – respondeu Ray com aquele sorriso idiota de sempre.
- Precisamos nos apressar. Os vizinhos logo vão perceber que tem algo estranho acontecendo aqui – disse Emily. Ela tava certa e eu também tava morrendo de preocupação com isso. Imagine só se chamassem a polícia? Era só o que faltava.
Esperamos até que Johnny desse algum sinal se vida. Depois de esperar alguns minutos, escutamos alguns barulhos estranhos que pareciam vir do lado de dentro da porta. Claire estava branca de medo. Não é à toa. Imagina só, a pop star do momento, presa por invasão de propriedade privada?
- Johnny, é vc? – perguntou Ray.
Nenhuma resposta. A porta só se abriu lenta e misteriosamente, fazendo um ruído típico de porta de mansão mal assombrada. Estávamos do lado de dentro, mas havia um problema.
- Gente, cadê o Johnny? – perguntou Claire.
- Não está em nenhum lugar que eu possa ver. Olhem só, devia ser isto que trancava a porta – disse Ray, abaixando-se para pegar do chão, ao pé da porta, um pé-de-cabra todo enferrujado. O trinco era antigo e tinha aquelas aberturas pra encaixar algo que prenda a porta à parede.
- Se Johnny não está aqui, acho que podemos concluir que não foi ele quem abriu esta porta para nós – disse Emily de forma bastante calma.
- Mas se não foi o Johnny, então quem foi que nos deixou entrar? – perguntou Ray de forma entrecortada. A pobre Claire empalideceu mais ainda.
- Ai gente, vamos embora daqui! Este lugar me dá arrepios.
- Não podemos sair agora. Não sem antes encontrar o Johnny – respondeu Emily.
- Ora, façam-me o favor, não sejam ridículos! É obvio que ele, como o bobalhão que é, está querendo nos pregar uma bela duma peça – disse Ashley de braços cruzados e aquela habitual carinha de nojo.
- A Emily tem razão, vamos nessa – confirmou Ray.
A porta de entrada dava direto a um salão grande, com poucos móveis como um sofá velho e alguns quadros idiotas de gente velha. Havia uma entrada à nossa esquerda que dava pra uma cozinha suja e abandonada que devia estar cheia de ratos e à nossa direita havia uma porta grande que estava fechada, sem contar que à nossa frente havia um lance de escadarias que parecia que se desintegraria a qualquer momento.
- Johnny provavelmente ainda está no andar de cima – comentou Emily.
- Quem sabe? É melhor não arriscar. Essas escadas não me parecem a coisa mais confiável do mundo... – falei.
- Mas e quanto ao Johnny? E se ele estiver lá em cima? Estou preocupada com ele – disse Claire.
- Eu não subo essas escadas idiotas de jeito nenhum! O Johnny que se vire. Não é ele o senhor “experiente em invasão de propriedade privada”? – falei fazendo as aspas com os dedos.
- O que há com vc, seu babaca? Não se preocupa com o seu amigo? Vc é mais egoísta que eu pensava. Não é a “amizade” tua virtude? – me respondeu a Ashley de forma grosseira, também fazendo as suas aspas com os dedos. Mas droga, não era ela mesma quem desprezava o Johnny? Não era ela mesma quem acabava de dizer que ele, provavelmente, estava planejando uma emboscada pra gente? Resolvi me calar. Até que o bobalhão do Ray teve uma idéia genial:
- Já sei galera: vamos nos separar!
Aquilo só podia ser brincadeira.
- Separar o caramba! Vc ta pensando que isso é um capítulo do Scooby-Doo? – perguntei revoltado.
- Huahuaa... Calma Max. Era só uma brincadeira!
- Gente, vamos logo. To com um mau presse... – dizia Claire, até ser interrompida por um:
- BAAAHHHHHH!
Era uma coisa branca e flutuante que se aproximou aos poucos enquanto estivemos ocupados discutindo. A coitada da garota quase teve um tréco. Ray se apressou em tomar o pé-de-cabra que pegou do chão e brandi-lo contra o suposto fantasma, mas antes que pudesse acertá-lo, o ser desconhecido riu de uma forma familiar para, então, se revelar. Era apenas Johnny coberto por um lençol branco. O idiota ria de uma forma toda fanfarrona.
- Hauhauha... Cara, isso foi demais! Vcs precisavam ter visto suas próprias caras. Foi hilário, huahuaa...
- Droga, seu inútil. Veja só o que vc fez com a garota aqui? – disse Ashley apontando pra Claire, que estava pálida como um fantasma.
- É, Johnny, isso não teve graça! – reclamou a garota.
- Ah, qual é galera? Vão me dizer que tão com medo dessa casa? Porque se for isso... – dizia Johnny, até ser interrompido mais uma vez.
- Quem está ai? – gritou uma voz desconhecida.
Da escada descia nada menos que um velho decrépito, vestindo ceroulas vermelhas, um capacete do exército, pantufas, uns óculos fundo de garrafa e apontando para nós uma espingarda. Aquilo só podia ser sacanagem. Claire deu um grito e se abraçou com toda a força ao Ray. Droga, por que ele? Eu estava até mais perto dela do que o cara. Isso gerou um olhar assassino de Ashley direcionado à menina medrosa. Não sei do que ela deveria ter mais medo: se do fantasma ou da nossa terrível presidente do grêmio estudantil. Ray apenas abraçou Claire com um dos braços e com o outro brandiu seu fiel pé-de-cabra contra o velho esquisito. Emily e Ben apenas observavam a situação enquanto eu estava paralisado de medo. É claro que nunca contei isso a ninguém, mas aquela foi outra situação em que quase molhei minhas calças. No entanto, a reação mais inesperada foi, de longe, a do Johnny, que se encolhia e gritava:
- É o fantasma do velho McCain! O cara tem uma espingarda! Salve-se quem puder! Ele vai nos matar. Ele vai nos matar! – e se arremessou para trás do sofá com a mesma destreza e rapidez com que escalou aquela maldita casa. Droga, aquele era o valentão que fazia os alunos de nossa escola ter pesadelos? O cara não passava de um frangote quando o assunto era o sobrenatural. O velho começou a gritar histericamente:
- Malditos vietcongs! Procurando emboscar o velho McCain, não é? É melhor que pensem duas vezes, seus filhos da mãe, pois este ianque aqui dorme com um olho fechado e o outro aberto. Saibam que estão lidando com um veterano, seus malditos comunistas!
O fantasma maluco gritava apontando aquela espingarda pra tudo o que é lado. A pobre Claire só chorava e dizia:
- Desculpe! Desculpe! Por favor, não nos mate. Nós vamos embora, por favor! A gente promete que nunca mais volta aqui. Deixa a gente ir embora, por favor!
Johnny continuava atrás do sofá gritando:
- O velho tem uma arma. Ele vai nos matar! Ele vai nos matar!
Aquela era, sem duvida, uma situação horrível. Eu tentava dizer alguma coisa, mas estava completamente paralisado. Pensei em correr e deixar todo mundo pra trás, mas minhas pernas endureceram. Foi quando Emily, que, até o presente momento, não havia esboçado expressão alguma, dá um passo a frente e começa a falar daquela forma calma de sempre:
- Sentimos muito por incomodar seu sono eterno, fantasma do velho McCain, mas o assunto que viemos tratar é de grande importância para todos os seres da Terra, incluindo os seres espirituais. Fontes seguras nos revelaram que, no ano de 2020, seres alienígenas com poderes psíquicos invadirão nosso planeta através de um portal interdimensional que se abrirá graças ao alinhamento dos planetas de nossa galáxia. Os únicos que podem evitar isto somos nós, os Escolhidos. O fato é que precisamos de um quartel general, e estamos convocando o senhor para nossa empreitada. Precisamos da sua casa para isso. Espero que compreenda esta situação. É uma guerra e o destino da Terra está em jogo.
A Emily falou toda aquela bobagem pro velho. Todos nós, os demais Escolhidos, trocávamos olhares assustados. Aquilo não podia dar certo. Com certeza seria o nosso fim. O velho encarava Emily e apontava para ela sua espingarda trêmula devido aos braços velhos. A garota não titubeia e mantém a mesma expressão indiferente. Até que o velho abaixa a espingarda (que mais tarde descobriríamos que nem ao menos funcionava), estala os dedos e diz:
- Esses malditos vietcongs! Não é à toa que ganharam a guerra. Eu sempre soube que estavam de conluio com os marcianos. Aqueles alienígenas filhos da mãe! Malditos bolcheviques!
Ficamos absolutamente boquiabertos. Aquilo não podia ser verdade.
- Mas será possível que vcs não percebem? Isso não é fantasma porcaria nenhuma. É só um velho gagá – disse Ashley revoltada.
Os caras só podiam tá de sacanagem pra cima de mim.
- Desculpe! Desculpe! Por favor, não nos mate. Nós vamos embora, por favor! A gente promete que nunca mais volta aqui. Deixa a gente ir embora, por favor!
Johnny continuava atrás do sofá gritando:
- O velho tem uma arma. Ele vai nos matar! Ele vai nos matar!
Aquela era, sem duvida, uma situação horrível. Eu tentava dizer alguma coisa, mas estava completamente paralisado. Pensei em correr e deixar todo mundo pra trás, mas minhas pernas endureceram. Foi quando Emily, que, até o presente momento, não havia esboçado expressão alguma, dá um passo a frente e começa a falar daquela forma calma de sempre:
- Sentimos muito por incomodar seu sono eterno, fantasma do velho McCain, mas o assunto que viemos tratar é de grande importância para todos os seres da Terra, incluindo os seres espirituais. Fontes seguras nos revelaram que, no ano de 2020, seres alienígenas com poderes psíquicos invadirão nosso planeta através de um portal interdimensional que se abrirá graças ao alinhamento dos planetas de nossa galáxia. Os únicos que podem evitar isto somos nós, os Escolhidos. O fato é que precisamos de um quartel general, e estamos convocando o senhor para nossa empreitada. Precisamos da sua casa para isso. Espero que compreenda esta situação. É uma guerra e o destino da Terra está em jogo.
A Emily falou toda aquela bobagem pro velho. Todos nós, os demais Escolhidos, trocávamos olhares assustados. Aquilo não podia dar certo. Com certeza seria o nosso fim. O velho encarava Emily e apontava para ela sua espingarda trêmula devido aos braços velhos. A garota não titubeia e mantém a mesma expressão indiferente. Até que o velho abaixa a espingarda (que mais tarde descobriríamos que nem ao menos funcionava), estala os dedos e diz:
- Esses malditos vietcongs! Não é à toa que ganharam a guerra. Eu sempre soube que estavam de conluio com os marcianos. Aqueles alienígenas filhos da mãe! Malditos bolcheviques!
Ficamos absolutamente boquiabertos. Aquilo não podia ser verdade.
- Mas será possível que vcs não percebem? Isso não é fantasma porcaria nenhuma. É só um velho gagá – disse Ashley revoltada.
Os caras só podiam tá de sacanagem pra cima de mim.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Espiral
Aprenda a fazer amizades rápido
As pessoas passam
Conheço uma garota cujo pai se apaixonou
E a madrasta se tornou a nova mãe
O coração de uma família mutante
Ela disse: “tenha bons filhos, pois não sou mais sua”.
Foi morar com a mãe
O problema: ela sempre odiou a mãe
Mas não mais que a madrasta
Se tornou uma solitária
Conheço um cara que tinha muitos amigos
Eram cem ou duzentos
Pouco tempo... Nenhum deles perdurou
Conheço também alguém
Um cara que não era feio nem bonito
Mas era inteligente e queria demais
Corações dados por mentes demasiado esclarecidas
Ele queria a beleza. Era seu direito.
Acabou sozinho.
Há também um homem que ficou velho cedo demais
Sentenciado a mais vinte anos arrastados com a barriga
Todos os seus amados já morreram.
É uma idade difícil. Até mesmo para o suicídio.
Eu conheço muita gente
Tenho medo da solidão. Eis o porquê deste discurso.
Conheço muita gente porque não quero ficar só
Todos passam. Sorte que aprendi a amar rápido.
As pessoas passam
Conheço uma garota cujo pai se apaixonou
E a madrasta se tornou a nova mãe
O coração de uma família mutante
Ela disse: “tenha bons filhos, pois não sou mais sua”.
Foi morar com a mãe
O problema: ela sempre odiou a mãe
Mas não mais que a madrasta
Se tornou uma solitária
Conheço um cara que tinha muitos amigos
Eram cem ou duzentos
Pouco tempo... Nenhum deles perdurou
Conheço também alguém
Um cara que não era feio nem bonito
Mas era inteligente e queria demais
Corações dados por mentes demasiado esclarecidas
Ele queria a beleza. Era seu direito.
Acabou sozinho.
Há também um homem que ficou velho cedo demais
Sentenciado a mais vinte anos arrastados com a barriga
Todos os seus amados já morreram.
É uma idade difícil. Até mesmo para o suicídio.
Eu conheço muita gente
Tenho medo da solidão. Eis o porquê deste discurso.
Conheço muita gente porque não quero ficar só
Todos passam. Sorte que aprendi a amar rápido.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
O fim do mundo, cap. 13
Eu e Emily estávamos a caminho da casa do Ben. Aquilo era mesmo um saco. O gordo tava gripado e faltou quase uma semana inteira de aula. Aí eu, que era o mais próximo que ele tinha de um amigo, fui escolhido pela Srta. Smith para levar as tarefas semanais até sua casa. Por que Emily estava comigo? Não tenho a mínima idéia. Ela me abordou na saída da aula e perguntou se não poderia me acompanhar, pois queria fazer uma visita ao nosso amigo doente. Vai entender a estranha. Por que alguém poderia querer ir à casa do Ben sem ser obrigado a isso? Eu e o Gordo somos amigos (se é que se pode chamar assim) de infância e lembro bem das suas festinhas de aniversário horríveis e das tardes de verão naquela casa abafada. Era uma droga, sem falar que a família dele sempre me deprimiu; lá vivia o pai, a mãe e os quatro irmãos do Ben, que era o do meio, e eram todos gordos. Sem brincadeira, eram TODOS GORDOS. Por que é que pais gordos têm sempre que ter filhos gordos? Pensando bem, a mãe do cara vivia oferecendo comida pras visitas, e era sempre sanduíche, pizza, cachorro quente... Nunca nada muito nutritivo. Bem, até ai sem problema, não gosto de comida nutritiva mesmo, mas os cinco irmãos obesos comiam tudo com uma voracidade que sempre me espantou. Um sanduíche atrás do outro. É assim desde quando éramos crianças e aquilo sempre me deu nojo.
Chegamos até o portão da casa. Tinha uma cerca de arame que dava pra um grande terreno que poderia ser um jardim, mas era só um matagal, e lá no fundo tava a casa modesta dos gordos. Batemos na campainha, mas ela não funcionava. Aquela campainha, diga-se de passagem, nunca funcionou. Por que aquela droga de família não tirava aquela droga de interruptor do portão se a campainha jamais funcionou? É só pra enfeite? A gente resolveu bater palmas e chamar pelo nome do Ben. Depois de um tempo, sai a mãe do cara de dentro da casa e atravessa o matagal até o portão. Ela continuava a mesma, gorda e sorridente, com aquela cara oleosa, amarelada pela fritura das batatas-fritas que vivia fazendo. Aquela mulher sempre me deu vontade de vomitar.
- Max, é vc? Há quanto tempo! Que bom que apareceu, o Benjamim está de cama por causa de uma gripe muito forte. E quem é a sua amiguinha? – disse a velha sorridente. Argh!
- Bom dia Sra. Watchosk. Essa é Emily e estuda com a gente. Nós viemos trazer as tarefas de casa do Ben.
- Ah sim. Entrem! Só, por favor, não reparem a bagunça!
Passamos pelo portão e, acompanhados da tiazinha gorda, atravessamos aquele matagal idiota. Por que ninguém nunca cortava aquela grama? Seriam todos tão gordos que mal conseguiam fazer um trabalho braçal tão simples quanto esse? A Emily apenas observava tudo em silêncio e andava logo atrás de mim. Chegamos à porta da casa e a Sra. Watchosk disse:
- Vamos entrando. Por favor, será que vcs podiam tirar os calçados? Eu acabei de limpar o piso e nosso jardim suja muito os sapatos.
Emily e eu tiramos os tênis e ficamos só de meia. Droga, eu odeio tirar o tênis pra entrar na casa dos outros, sem falar que aquela casa era sempre imunda, então por que se dar ao trabalho de tirar o calçado? A tiazinha nos levou à sala de estar. A decoração daquela casa era horrível. A família era de uma religião bem ortodoxa e enchiam as paredes e os móveis com quadros e imagens de santos. Todas aquelas estatuazinhas sujas e aqueles quadros porcos me deprimiam desde as primeiras visitas àquele lugar, durante a minha infância. Mal entramos e quase fomos atropelados pelas irmãzinhas do Ben, que corriam pela casa. Eram duas meninas gordinhas e alegres que brincavam de pega-pega. Tinha mais um irmão de colo, que ficava num berço perto da cozinha. Aquelas crianças cheiravam a vômito. Por que criança pequena sempre cheira mal?
- Benjamim está repousando no quarto. Podem ir até lá entregar as tarefas enquanto eu preparo uns sanduíches pra vcs. – falou a tiazinha toda faceira.
- Ta, obrigado Sra. Watchosk.
Chegamos ao quarto. Como eu tava com uma garota, resolvi bater na porta antes de entrar. Vai que o gordo estivesse só de cueca? Bati e escutei um “entre” bastante abafado. O quarto continuava o mesmo de sempre, com aqueles móveis antigos e as paredes forradas de quadros de Jesus e pôsteres do Capitão América, do Homem Aranha, de carros esportivos ou algo que o valha. O gordo estava só de regata e cueca samba-canção. Droga, ele achava que aquela cueca em forma de short era uma roupa apresentável pra recebeu uma garota no quarto? Bem, não fazia muita diferença. A Emily não era do tipo que se importava muito com isso.
- O que vcs tão fazendo aqui? – perguntou Ben todo desconfiado.
- A gente veio te entregar a faixa de Miss Simpatia. Parabéns!
O gordo continuou a me olhar com uma cara de “O quê? Miss simpatia? Eu?”.
- To sendo irônico, droga. Isso é jeito de falar com as visitas? Pra tua informação, eu vim aqui só pra te entregar essas tarefas da Srta. Smith e a Emily veio por que tava preocupada com vc e queria saber como vc tava. Isso é jeito de tratar a garota preocupada com a tua saúde?
O cara mandou aquele olhar habitual pra Emily, que devia conter uma mensagem do tipo “desculpe”. Entreguei as tarefas e expliquei o que ele tinha que fazer. O cara era lento e não conseguia compreender nada.
- Então aqui eu aplico a fórmula né?
- Não, besta! Já te disse que é depois da equação. Vc é burro por acaso?
- Droga Max, se for pra me xingar, por que não vai embora?
- E eu vou mesmo. – falei, já tomando meu caminho para a porta do quarto, quando Emily disse:
- Espera Max. Por que vc não espera a Sra. Watchosk trazer os sanduíches pra explicar essas coisas difíceis pro Ben?
- Sanduíches?? – perguntou o gordo todo animado.
- Sim, a tua mãe disse que logo nos traria um lanche. Aposto que vc pode resolver essas equações sem problemas se estiver mastigando alguma coisa.
Foi só ela falar que a porta bateu e a mãe do Ben falou “Crianças, trouxe sanduíches!”.
Eu odeio quando me chamam de criança. Todos nós já tínhamos quinze anos, mas aquela tiazinha gorda nunca entenderia a diferença entre um adolescente e uma criança. Ela entrou com uma bandeja cheia de hambúrgueres gordurosos e o gordo saltou da cama pra abocanhar o primeiro. Aquilo era nojento.
- Ei Ben, por que não tenta fazer as tarefas enquanto come?
O Ben mandou um olhar de repúdio pra pobre Emily e disse:
- Ta na hora de comer. Depois eu faço as tarefas.
A garota continuava com aquela cara indiferente de sempre. Até que se levantou da cadeira em que sentava e caminhou lentamente até o gordo dizendo:
- Aposto que vc conseguirá entender tudo rapidinho. Não quer nem ao menos tentar? Eu posso te ajudar com as tarefas – disse a garota, sentando ao seu lado na cama. Aquela situação me parecia bastante familiar. Reparei que ela encostava levemente sua perna na perna dele e ficava com o rosto bem próximo ao dele. Aposto que o gordo podia até sentir a respiração da garota. Droga, o que significava aquilo?
- T-Ta bem, vou tentar – balbuciou o Ben.
Emily pos o caderno sobre suas pernas – a dela e a dele – e, com um lápis em mãos, começou a explicar a aplicação da fórmula enquanto o cara comia o sanduíche desesperadamente, mastigando e fazendo barulhos esquisitos.
- Espera, não é aí que vc usa a fórmula. Droga, Ben. Já não te falei isso? – reclamei.
- Vc ta errado. A formula é aqui sim – protestou o gordo de boca cheia. Quase voou pedaço de carne em mim.
- O quê???
- Ele ta certo, Max. Olha só: o resultado que ele encontrou é o mesmo que a professora passou. Acho que é vc quem ta respondendo a equação errado – disse a Emily. Ah ta, era só o que faltava!
A garota se virou pra Ben. Os dois se olharam de forma meio suspeita, ela com seus olhões azuis e ele mastigando um resto de sanduíche.
- Viu? Eu sabia que vc conseguiria! – disse a Emily com aquele seu raro sorriso, sem mostrar os dentes. A garota parecia tão gentil. Droga. Aquele gordo não merecia um tratamento desses!
- Legal. Vamos fazer este outro exercício aqui! – disse Ben todo animadinho com a nova descoberta.
- Não. Agora que vc aprendeu, pode fazê-lo sozinho mais tarde. Agora, eu gostaria que vc mostrasse aquilo que me falou – disse Emily. Fiquei boiando.
- Aquilo o quê? - perguntei.
- Vc logo verá – respondeu a garota. Droga, eu sempre odiei quando ela bancava a misteriosa. Aposto que devia ser uma coisa absolutamente idiota.
O gordo levantou da cama, abriu o guarda-roupa e pediu licença pra poder se trocar.
- A gente vai sair? – perguntei.
- Sim. O Ben vai nos mostrar um lugar perto daqui.
Eu devia saber que a Emily não tava visitando o doente à toa. Ela sempre tem seus motivos, como explorar um lugar secreto ou buscar informações sobre alienígenas. Esperamos do lado de fora do quarto até que o Ben saiu, desta vez com roupas descentes. Fomos até a sala de estar que era caminho para a saída e nos deparamos com o pai e o irmão mais velho de Ben que acabavam de voltar da oficina. O pai do cara era igualzinho a ele, gordo e taciturno, mas usava um macacão azul, sujo de graxa e com seu nome costurado no peito. Os dois trabalhavam na oficina da família e voltavam sempre com as caras sujas de graxa. Aquilo era mais uma coisa nojenta na família. Os dois mal nos cumprimentaram e foram direto pra sala de televisão, se jogaram no sofá já manchado da mesma graxa de sempre e ficaram lá, até que o Sr. Watchosk gritou pro Ben:
- Ei garoto, me alcança o controle da televisão ali na estante!
O Ben se locomoveu da sala de estar até a de televisão só pra alcançar o controle pro pai, que devia ta a poucos metros do próprio. Eram todos uns porcos preguiçosos. Depois disso resolvemos sair daquela casa antes que o coitado tivesse que buscar algo na geladeira ou coisa assim. Fomos abordados pela Sra. Watchosk:
- Benjamim, o que está fazendo? Vcs vão sair? Mas vc está muito doente!
- Tudo bem, mãe. Só vou até a esquina com eles e volto logo.
- Ta bem, querido, mas não venha tarde.
A tiazinha fez uma benção pro gordo. Benção pra que? Não é como se alguma coisa muito trágica pudesse ocorrer no caminho até a esquina. Antes que pudéssemos sair, o paizão gordo grita mais uma vez:
- Benjamim! Se for sair, passe na loja de conveniências e me traga uma cerveja.
- Ta bom pai! – respondeu o gordo.
Viver naquela casa devia ser uma droga, principalmente quando você era o filho do meio como o Ben. Saímos e andamos. Um pouco mais que uma esquina, até que chegamos ao nosso terrível destino.
- É aqui – disse Ben – o lugar ta abandonado há muito tempo.
- Bem... Parece legal. Este pode ser o primeiro quartel general dos Escolhidos – disse Emily.
- O quê??? – perguntei boquiaberto.
Fazia dias que a Emily falava que nós, os Escolhidos, precisávamos de um lugar secreto para fazer aquelas reuniões idiotas sobre alienígenas e toda essa palhaçada. Toda vez que ela falava deste lugar, usava uma definição diferente. As mais populares eram “quartel general”, “base” e “esconderijo”. Até aí tudo bem, mas aquilo era demais! Estávamos em frente a nada menos que o casarão do velho McCain. Um lugar folclórico na nossa cidade, abandonado há muito tempo, que se dizia ser mal-assombrado. Ninguém tinha coragem de entrar em um lugar como aquele, muito menos eu.
- Vcs só podem ta de brincadeira né? Ninguém vai aceitar entrar num lugar desses! O que deu em vcs? – perguntei desesperado.
- Bem, eu acho que é um bom lugar. Amanhã é sábado e podemos combinar de nos encontrarmos aqui em frente durante o dia pra que possamos explorar o casarão por dentro e avaliar se é mesmo uma boa base para nós – falou Emily.
Aquilo não me cheirava bem. Tava na cara que alguma coisa não sairia certo.
Chegamos até o portão da casa. Tinha uma cerca de arame que dava pra um grande terreno que poderia ser um jardim, mas era só um matagal, e lá no fundo tava a casa modesta dos gordos. Batemos na campainha, mas ela não funcionava. Aquela campainha, diga-se de passagem, nunca funcionou. Por que aquela droga de família não tirava aquela droga de interruptor do portão se a campainha jamais funcionou? É só pra enfeite? A gente resolveu bater palmas e chamar pelo nome do Ben. Depois de um tempo, sai a mãe do cara de dentro da casa e atravessa o matagal até o portão. Ela continuava a mesma, gorda e sorridente, com aquela cara oleosa, amarelada pela fritura das batatas-fritas que vivia fazendo. Aquela mulher sempre me deu vontade de vomitar.
- Max, é vc? Há quanto tempo! Que bom que apareceu, o Benjamim está de cama por causa de uma gripe muito forte. E quem é a sua amiguinha? – disse a velha sorridente. Argh!
- Bom dia Sra. Watchosk. Essa é Emily e estuda com a gente. Nós viemos trazer as tarefas de casa do Ben.
- Ah sim. Entrem! Só, por favor, não reparem a bagunça!
Passamos pelo portão e, acompanhados da tiazinha gorda, atravessamos aquele matagal idiota. Por que ninguém nunca cortava aquela grama? Seriam todos tão gordos que mal conseguiam fazer um trabalho braçal tão simples quanto esse? A Emily apenas observava tudo em silêncio e andava logo atrás de mim. Chegamos à porta da casa e a Sra. Watchosk disse:
- Vamos entrando. Por favor, será que vcs podiam tirar os calçados? Eu acabei de limpar o piso e nosso jardim suja muito os sapatos.
Emily e eu tiramos os tênis e ficamos só de meia. Droga, eu odeio tirar o tênis pra entrar na casa dos outros, sem falar que aquela casa era sempre imunda, então por que se dar ao trabalho de tirar o calçado? A tiazinha nos levou à sala de estar. A decoração daquela casa era horrível. A família era de uma religião bem ortodoxa e enchiam as paredes e os móveis com quadros e imagens de santos. Todas aquelas estatuazinhas sujas e aqueles quadros porcos me deprimiam desde as primeiras visitas àquele lugar, durante a minha infância. Mal entramos e quase fomos atropelados pelas irmãzinhas do Ben, que corriam pela casa. Eram duas meninas gordinhas e alegres que brincavam de pega-pega. Tinha mais um irmão de colo, que ficava num berço perto da cozinha. Aquelas crianças cheiravam a vômito. Por que criança pequena sempre cheira mal?
- Benjamim está repousando no quarto. Podem ir até lá entregar as tarefas enquanto eu preparo uns sanduíches pra vcs. – falou a tiazinha toda faceira.
- Ta, obrigado Sra. Watchosk.
Chegamos ao quarto. Como eu tava com uma garota, resolvi bater na porta antes de entrar. Vai que o gordo estivesse só de cueca? Bati e escutei um “entre” bastante abafado. O quarto continuava o mesmo de sempre, com aqueles móveis antigos e as paredes forradas de quadros de Jesus e pôsteres do Capitão América, do Homem Aranha, de carros esportivos ou algo que o valha. O gordo estava só de regata e cueca samba-canção. Droga, ele achava que aquela cueca em forma de short era uma roupa apresentável pra recebeu uma garota no quarto? Bem, não fazia muita diferença. A Emily não era do tipo que se importava muito com isso.
- O que vcs tão fazendo aqui? – perguntou Ben todo desconfiado.
- A gente veio te entregar a faixa de Miss Simpatia. Parabéns!
O gordo continuou a me olhar com uma cara de “O quê? Miss simpatia? Eu?”.
- To sendo irônico, droga. Isso é jeito de falar com as visitas? Pra tua informação, eu vim aqui só pra te entregar essas tarefas da Srta. Smith e a Emily veio por que tava preocupada com vc e queria saber como vc tava. Isso é jeito de tratar a garota preocupada com a tua saúde?
O cara mandou aquele olhar habitual pra Emily, que devia conter uma mensagem do tipo “desculpe”. Entreguei as tarefas e expliquei o que ele tinha que fazer. O cara era lento e não conseguia compreender nada.
- Então aqui eu aplico a fórmula né?
- Não, besta! Já te disse que é depois da equação. Vc é burro por acaso?
- Droga Max, se for pra me xingar, por que não vai embora?
- E eu vou mesmo. – falei, já tomando meu caminho para a porta do quarto, quando Emily disse:
- Espera Max. Por que vc não espera a Sra. Watchosk trazer os sanduíches pra explicar essas coisas difíceis pro Ben?
- Sanduíches?? – perguntou o gordo todo animado.
- Sim, a tua mãe disse que logo nos traria um lanche. Aposto que vc pode resolver essas equações sem problemas se estiver mastigando alguma coisa.
Foi só ela falar que a porta bateu e a mãe do Ben falou “Crianças, trouxe sanduíches!”.
Eu odeio quando me chamam de criança. Todos nós já tínhamos quinze anos, mas aquela tiazinha gorda nunca entenderia a diferença entre um adolescente e uma criança. Ela entrou com uma bandeja cheia de hambúrgueres gordurosos e o gordo saltou da cama pra abocanhar o primeiro. Aquilo era nojento.
- Ei Ben, por que não tenta fazer as tarefas enquanto come?
O Ben mandou um olhar de repúdio pra pobre Emily e disse:
- Ta na hora de comer. Depois eu faço as tarefas.
A garota continuava com aquela cara indiferente de sempre. Até que se levantou da cadeira em que sentava e caminhou lentamente até o gordo dizendo:
- Aposto que vc conseguirá entender tudo rapidinho. Não quer nem ao menos tentar? Eu posso te ajudar com as tarefas – disse a garota, sentando ao seu lado na cama. Aquela situação me parecia bastante familiar. Reparei que ela encostava levemente sua perna na perna dele e ficava com o rosto bem próximo ao dele. Aposto que o gordo podia até sentir a respiração da garota. Droga, o que significava aquilo?
- T-Ta bem, vou tentar – balbuciou o Ben.
Emily pos o caderno sobre suas pernas – a dela e a dele – e, com um lápis em mãos, começou a explicar a aplicação da fórmula enquanto o cara comia o sanduíche desesperadamente, mastigando e fazendo barulhos esquisitos.
- Espera, não é aí que vc usa a fórmula. Droga, Ben. Já não te falei isso? – reclamei.
- Vc ta errado. A formula é aqui sim – protestou o gordo de boca cheia. Quase voou pedaço de carne em mim.
- O quê???
- Ele ta certo, Max. Olha só: o resultado que ele encontrou é o mesmo que a professora passou. Acho que é vc quem ta respondendo a equação errado – disse a Emily. Ah ta, era só o que faltava!
A garota se virou pra Ben. Os dois se olharam de forma meio suspeita, ela com seus olhões azuis e ele mastigando um resto de sanduíche.
- Viu? Eu sabia que vc conseguiria! – disse a Emily com aquele seu raro sorriso, sem mostrar os dentes. A garota parecia tão gentil. Droga. Aquele gordo não merecia um tratamento desses!
- Legal. Vamos fazer este outro exercício aqui! – disse Ben todo animadinho com a nova descoberta.
- Não. Agora que vc aprendeu, pode fazê-lo sozinho mais tarde. Agora, eu gostaria que vc mostrasse aquilo que me falou – disse Emily. Fiquei boiando.
- Aquilo o quê? - perguntei.
- Vc logo verá – respondeu a garota. Droga, eu sempre odiei quando ela bancava a misteriosa. Aposto que devia ser uma coisa absolutamente idiota.
O gordo levantou da cama, abriu o guarda-roupa e pediu licença pra poder se trocar.
- A gente vai sair? – perguntei.
- Sim. O Ben vai nos mostrar um lugar perto daqui.
Eu devia saber que a Emily não tava visitando o doente à toa. Ela sempre tem seus motivos, como explorar um lugar secreto ou buscar informações sobre alienígenas. Esperamos do lado de fora do quarto até que o Ben saiu, desta vez com roupas descentes. Fomos até a sala de estar que era caminho para a saída e nos deparamos com o pai e o irmão mais velho de Ben que acabavam de voltar da oficina. O pai do cara era igualzinho a ele, gordo e taciturno, mas usava um macacão azul, sujo de graxa e com seu nome costurado no peito. Os dois trabalhavam na oficina da família e voltavam sempre com as caras sujas de graxa. Aquilo era mais uma coisa nojenta na família. Os dois mal nos cumprimentaram e foram direto pra sala de televisão, se jogaram no sofá já manchado da mesma graxa de sempre e ficaram lá, até que o Sr. Watchosk gritou pro Ben:
- Ei garoto, me alcança o controle da televisão ali na estante!
O Ben se locomoveu da sala de estar até a de televisão só pra alcançar o controle pro pai, que devia ta a poucos metros do próprio. Eram todos uns porcos preguiçosos. Depois disso resolvemos sair daquela casa antes que o coitado tivesse que buscar algo na geladeira ou coisa assim. Fomos abordados pela Sra. Watchosk:
- Benjamim, o que está fazendo? Vcs vão sair? Mas vc está muito doente!
- Tudo bem, mãe. Só vou até a esquina com eles e volto logo.
- Ta bem, querido, mas não venha tarde.
A tiazinha fez uma benção pro gordo. Benção pra que? Não é como se alguma coisa muito trágica pudesse ocorrer no caminho até a esquina. Antes que pudéssemos sair, o paizão gordo grita mais uma vez:
- Benjamim! Se for sair, passe na loja de conveniências e me traga uma cerveja.
- Ta bom pai! – respondeu o gordo.
Viver naquela casa devia ser uma droga, principalmente quando você era o filho do meio como o Ben. Saímos e andamos. Um pouco mais que uma esquina, até que chegamos ao nosso terrível destino.
- É aqui – disse Ben – o lugar ta abandonado há muito tempo.
- Bem... Parece legal. Este pode ser o primeiro quartel general dos Escolhidos – disse Emily.
- O quê??? – perguntei boquiaberto.
Fazia dias que a Emily falava que nós, os Escolhidos, precisávamos de um lugar secreto para fazer aquelas reuniões idiotas sobre alienígenas e toda essa palhaçada. Toda vez que ela falava deste lugar, usava uma definição diferente. As mais populares eram “quartel general”, “base” e “esconderijo”. Até aí tudo bem, mas aquilo era demais! Estávamos em frente a nada menos que o casarão do velho McCain. Um lugar folclórico na nossa cidade, abandonado há muito tempo, que se dizia ser mal-assombrado. Ninguém tinha coragem de entrar em um lugar como aquele, muito menos eu.
- Vcs só podem ta de brincadeira né? Ninguém vai aceitar entrar num lugar desses! O que deu em vcs? – perguntei desesperado.
- Bem, eu acho que é um bom lugar. Amanhã é sábado e podemos combinar de nos encontrarmos aqui em frente durante o dia pra que possamos explorar o casarão por dentro e avaliar se é mesmo uma boa base para nós – falou Emily.
Aquilo não me cheirava bem. Tava na cara que alguma coisa não sairia certo.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
O fim do mundo, cap. 2 - B
Finalmente chegou o horário do almoço. Eu a esperava ansiosamente na mesa. Aquela mesma em que ela sempre sentava sozinha, mas desta vez eu estaria ali, ao seu lado. Quantas vezes, na minha imaginação, eu já não tinha me projetado ali, almoçando ao lado dela? Emily... O nome era simplesmente perfeito. A coisa mais bela que eu poderia ter imaginado. Quando menos espero, eis que surge a garota, com seus belíssimos cabelos lisos, um casaco de lã e a habitual saia até o joelho. Nossos olhos se cruzaram e meu coração dispara. Passei a sentir como se houvesse uma ventania em meu estômago. Meus dedos parecem formigar. Ela se aproxima devagar, com sua bandeja em mãos e senta em minha frente. Nossos olhos se cruzam e toda aquela pureza parece me invadir violentamente. Sinto minhas pernas tremerem.
- E então, o que mais temos para discutir? – ela pergunta da forma mais gentil que eu poderia esperar. Não havia mais sentido em insistir em todas aquelas bobagens.
- Bem... Na verdade eu preciso te contar uma coisa...
- Sim?
- Bem... Tudo o que eu te falei sobre alienígenas, portais interdimensionais e Escolhidos... Nada disso é verdade, sabe?
Ela apenas continua a me olhar séria. Aquela beleza me embriagava de uma forma que me fazia gaguejar enquanto planejava minhas explicações. Continuei:
- É que... Veja bem, eu sempre quis te conhecer melhor. Parece bobagem mas eu sinto que temos algo em comum. Sinto que sou diferente de todo mundo aqui, e sinto em você a mesma coisa. Você é especial. Ainda mais especial que eu. Eu... Ah, há dias que tenho todo um discurso decorado, na ponta da língua, dedicado a esse momento, mas é apenas você apontar esses olhos para mim que me sinto desarmado e me obrigo a dizer coisas idiotas, como essas bobagens sobre alienígenas do futuro e toda essa idiotice. Não sou bom com palavras... Eu não sei dizer as coisas que sinto na hora em que preciso dizer, e... Assim, você é a coisa mais pura que já conheci. Sei que mal nos conhecemos, mas tenho certeza de que ficar próximo a você é o que pode me fazer mais feliz nesse mundo. Nem que tenha que te observar à distância para sempre. Nem que você nunca mais fale comigo... Não quero te perder de vista.
Ela continuava me encarando com aqueles olhos invencíveis. Ouvia atenciosamente, até que surge o silêncio em meu discurso. Ela sorri. Um sorriso leve e gentil, sem mostrar os dentes.
- Mas eu nunca exigi de ninguém a verdade. Vamos continuar conversando sobre alienígenas, homens do futuro e canais secretos de televisão. Essa história toda... Você a inventou para mim. Me sinto tão honrada... Quero fazer parte deste mundo que criou pra mim, nem que seja só por um momento. Nem que seja só em imaginação. Vai ser divertido de uma forma que a minha vida jamais foi.
Nesse momento, ela desvia seus poderosos e delicados olhos dos meus. Por que não me olhava mais nos olhos? Será que o assunto a deixava perturbada?
- Sabe Max? Eu moro sozinha. Meus pais são divorciados e me consideram o motivo da separação. Nenhum deles me quer por perto, e eu entendo. Não quero causar mais sofrimento do que já causei. Não quero que as pessoas esperem de mim algo se possa haver uma chance, mesmo que seja mínima, de decepcioná-las. Eu nunca conheci o amor verdadeiro. O máximo que já senti por alguém foi por um velho que me chamava de Christine e, às vezes, esquecia que morávamos na mesma casa. Este velho não esperava nada de mim. Eu era invisível aos olhos dele, e eu o amava por isso.
Eu escutava atentamente. Aquela história... Nunca imaginei nada como aquilo. Ela continuou:
- Mas eu quero aprender um amor diferente. Quero amar e existir ao mesmo tempo. Quero ser amada por alguém. E este...
Neste momento ela se levanta, dá a volta na mesa, puxa uma cadeira para bem próximo de mim e senta ao meu lado. Sinto sua mão deslizar por meu braço, e seus dedos procurando se encaixar entre os meus. De repente, estamos de mãos dadas. O contato me deixou paralisado.
- Este mundo que você criou pra mim. Vamos construí-lo juntos?
- Sim...
- Eu não quero assistir mais as aulas. Vamos embora?
- Mas... E quanto aos exames? Como fugiremos sem que ninguém nos perceba?
- Quem se importa com os exames? E eu conheço um beco, entre o depósito e o ginásio, onde podemos pular a cerca com facilidade. Você aceita fazer esta loucura comigo Max?
De fato, quem se importa com os exames?
- É claro...
- Então vamos. Eu conheço uma lanchonete no caminho para o centro da cidade. Eu gostaria de conferir uma coisa lá. No caminho, você pode me contar mais sobre os Escolhidos, o Canal X e todas essas coisas fantásticas?
- Claro...
Foi o dia mais colorido de minha vida.
- E então, o que mais temos para discutir? – ela pergunta da forma mais gentil que eu poderia esperar. Não havia mais sentido em insistir em todas aquelas bobagens.
- Bem... Na verdade eu preciso te contar uma coisa...
- Sim?
- Bem... Tudo o que eu te falei sobre alienígenas, portais interdimensionais e Escolhidos... Nada disso é verdade, sabe?
Ela apenas continua a me olhar séria. Aquela beleza me embriagava de uma forma que me fazia gaguejar enquanto planejava minhas explicações. Continuei:
- É que... Veja bem, eu sempre quis te conhecer melhor. Parece bobagem mas eu sinto que temos algo em comum. Sinto que sou diferente de todo mundo aqui, e sinto em você a mesma coisa. Você é especial. Ainda mais especial que eu. Eu... Ah, há dias que tenho todo um discurso decorado, na ponta da língua, dedicado a esse momento, mas é apenas você apontar esses olhos para mim que me sinto desarmado e me obrigo a dizer coisas idiotas, como essas bobagens sobre alienígenas do futuro e toda essa idiotice. Não sou bom com palavras... Eu não sei dizer as coisas que sinto na hora em que preciso dizer, e... Assim, você é a coisa mais pura que já conheci. Sei que mal nos conhecemos, mas tenho certeza de que ficar próximo a você é o que pode me fazer mais feliz nesse mundo. Nem que tenha que te observar à distância para sempre. Nem que você nunca mais fale comigo... Não quero te perder de vista.
Ela continuava me encarando com aqueles olhos invencíveis. Ouvia atenciosamente, até que surge o silêncio em meu discurso. Ela sorri. Um sorriso leve e gentil, sem mostrar os dentes.
- Mas eu nunca exigi de ninguém a verdade. Vamos continuar conversando sobre alienígenas, homens do futuro e canais secretos de televisão. Essa história toda... Você a inventou para mim. Me sinto tão honrada... Quero fazer parte deste mundo que criou pra mim, nem que seja só por um momento. Nem que seja só em imaginação. Vai ser divertido de uma forma que a minha vida jamais foi.
Nesse momento, ela desvia seus poderosos e delicados olhos dos meus. Por que não me olhava mais nos olhos? Será que o assunto a deixava perturbada?
- Sabe Max? Eu moro sozinha. Meus pais são divorciados e me consideram o motivo da separação. Nenhum deles me quer por perto, e eu entendo. Não quero causar mais sofrimento do que já causei. Não quero que as pessoas esperem de mim algo se possa haver uma chance, mesmo que seja mínima, de decepcioná-las. Eu nunca conheci o amor verdadeiro. O máximo que já senti por alguém foi por um velho que me chamava de Christine e, às vezes, esquecia que morávamos na mesma casa. Este velho não esperava nada de mim. Eu era invisível aos olhos dele, e eu o amava por isso.
Eu escutava atentamente. Aquela história... Nunca imaginei nada como aquilo. Ela continuou:
- Mas eu quero aprender um amor diferente. Quero amar e existir ao mesmo tempo. Quero ser amada por alguém. E este...
Neste momento ela se levanta, dá a volta na mesa, puxa uma cadeira para bem próximo de mim e senta ao meu lado. Sinto sua mão deslizar por meu braço, e seus dedos procurando se encaixar entre os meus. De repente, estamos de mãos dadas. O contato me deixou paralisado.
- Este mundo que você criou pra mim. Vamos construí-lo juntos?
- Sim...
- Eu não quero assistir mais as aulas. Vamos embora?
- Mas... E quanto aos exames? Como fugiremos sem que ninguém nos perceba?
- Quem se importa com os exames? E eu conheço um beco, entre o depósito e o ginásio, onde podemos pular a cerca com facilidade. Você aceita fazer esta loucura comigo Max?
De fato, quem se importa com os exames?
- É claro...
- Então vamos. Eu conheço uma lanchonete no caminho para o centro da cidade. Eu gostaria de conferir uma coisa lá. No caminho, você pode me contar mais sobre os Escolhidos, o Canal X e todas essas coisas fantásticas?
- Claro...
Foi o dia mais colorido de minha vida.
O fim do mundo, cap. 12
Passou-se mais uma semana desde que Claire passou a andar com a gente. Eu estava voltando pra minha sala quando encontro a garota presa em uma roda de gente louca por um pouco de sua atenção e, quem sabe, até um autógrafo ou um pequeno pertence pessoal. Passo por todos de cabeça baixa, tentando chamar a menos atenção possível. Não adiantou nada.
- Ei Max! – chamou Claire, acenando e sorrindo para mim.
Era sempre a mesma ladainha. Ela dava tratamento especial para mim e o resto dos Escolhidos, logo eu, Emily e Ben, que estudávamos na mesma classe que ela, nos tornamos conhecidos e invejados por todos. A garota conseguiu fugir do grupo de fãs e correu até onde eu estava. Me cumprimentou com um beijinho no rosto. Todo dia era a mesma coisa, inclusive o lance com o beijo, o que fazia os garotos que estivessem por perto me encararem com um olhar de pura inveja. E eu, que sempre quis passar despercebido por todos, agora era o centro das atenções. Bem, também eu não tinha de quê reclamar. Os beijos eram suaves e molhadinhos. Dava vontade de nunca mais lavar a bochecha. Sem falar que a garota usava um perfume delicioso.
- Tudo bem? – me perguntou Claire, com o sorriso simpático de sempre.
- Ah... Tudo bem.
Ouvi alguém falar à nossa volta “Quem é esse cara?” e “Por que a Claire dá tanta bola pra ele?”. Bem, acho que isso devia consertar a minha reputação, mas, mesmo assim, nunca gostei de ser o centro das atenções. O sinal bateu e corremos assistir a uma emocionante aula de química da Srta. Smith. Aquilo era um saco. Claire passou a sentar do lado de Emily, uma carteira atrás e na diagonal da minha. Por algum motivo estúpido a pop star passou a bajular a esquisita. Claire conversava a todo o momento com Emily. Não que a esquisita respondesse muito, mas a outra não parecia se importar. Isso rendia algumas repreensões da Srta. Smith. Algo como “Senhorita Campbell, o fato de ser uma estrela adolescente não significa que possa acabar com a ordem em minha aula” e a garota respondia de cabeça baixa e olhar de cachorrinha sem dono: “Perdão, Srta. Smith. Prometo que não irá se repetir”, mas a situação sempre se repetia. Bem, ela não devia se importar muito com a escola. Se eu tivesse a grana que ela ganhava por ano, mandava a escola se danar.
Intervalo. Estávamos nos preparando para o almoço. Claire e Emily conversavam sobre alguma coisa qualquer. A curiosidade me bateu com força.
- Desculpa Claire.
- Sim, Max?
- Por que foi que vc voltou a estudar? Digo, vc deve ganhar bastante dinheiro com a TV, a venda dos teus álbuns, as fotos em revistas e tudo mais. Se eu tivesse o dinheiro que vc tem, jamais voltaria a estudar.
A garota riu do que falei. Qual era a graça?
- Bem... Não foi exatamente esta a minha idéia. É que meu empresário explicou que alguém do juizado de menores podia nos processar caso eu perdesse mais um ano de estudo. Sem falar que eu realmente tava precisando de umas férias e... Sabe? Depois de um ano apenas fazendo shows e gravações, a gente acaba sentindo falta da escola.
- Puxa... Nunca pensei nisso. Dá pra entender – menti. Eu jamais entenderia. Como alguém poderia enjoar de nunca mais ter que ir à escola? Imagina alguém como eu, com o dinheiro dela? Eu trataria de comprar uma rua inteira só pra mim - uma que fosse perfeita para algumas manobras - e passaria o dia inteiro nela, na maior paz e tranqüilidade.
- Com licença Claire – chamou Emily.
- Sim!
- Vc disse que, assim que fizesse parte dos Escolhidos, nos contaria o que quis dizer com aquela história de já conhecer cada um de nós. Já se passou uma semana e vc está sempre por perto da gente, então presumo que já se considere uma Escolhida. Poderia nos explicar, então, o significado daquilo que disse?
Não sei por que Emily tinha que tratar tudo sempre daquele jeitão tão formal. Deu que a Claire sorriu. Um sorriso gentil que só ela sabia dar.
- Ta bem! Eu devo isso à vcs, mas gostaria que a conversa não fosse aqui, dentro do colégio. Tem um parquinho perto daqui. Ta sempre cheio de crianças e os brinquedos são bem coloridos. Eu gosto muito de balanços. O que acham de a gente conversar lá?
Parquinho? E por acaso a gente tinha sete anos? Ela gostava de balanços? Seria possível que eu fosse a única pessoa normal naquele grupo?
- Ta bem. Então, depois da aula vamos ao parquinho. Certo Max? – perguntou Emily.
- Ah, por mim tudo bem.
Saímos em direção ao refeitório. A cada passo, Claire era abordada por um fã diferente. Aquilo era tão idiota. Pra que toda aquela comoção? Digo, é claro que a menina era bonita e gostosa, mas também não era pra tanto. O bicho pega quando a gente cruza no corredor com Whitney e suas seguidoras, com suas bolsinhas de grife e seus saltos de sei lá quantos centímetros, fazendo um barulho absolutamente irritante com suas pulseiras brilhantes.
- Olá Claire, querida. – disse Whitney.
A garota a cumprimenta com a simpatia habitual.
- Olá! Tudo bem?
- Sim, querida. Vc já deve saber quem sou, não é?
- Ah... Lamento. Sou nova no colégio.
As seguidoras trocam olhares surpresos. Como alguém poderia deixar de conhecer Whitney? A líder dá um sorriso amargo de meia boca e diz:
- Eu sou Whitney e o nosso grupo é o mais popular entre os grupos femininos do colégio. Somos desejadas pelos homens e invejadas pelas mulheres. Sabemos andar com estilo, e todos sabem disso. Deixa eu te dar um conselho, querida: tenho um bom faro pra gente refinada como eu, e posso dizer que, nesse colégio, alguém refinada como vc só tem a perder andando com gente como esses dois aí – disse a nojenta, apontando para mim e para Emily.
- Bem, eu...
- É uma ocasião especial. Estamos te convidando a sentar em nossa mesa durante o almoço. É uma oportunidade única. São pouquíssimas as garotas convidadas a fazer parte da nossa recreação. Então vamos?
- Bem, é que...
- O que é? Pode falar, já somos amigas. Precisa ir ao banheiro antes de almoçar? Sinceramente, vc precisa de uma maquiagem mais expressiva. Todos reparam nisso no refeitório, e...
- Não! É que eu já combinei de almoçar com meus amigos aqui. Sinto muito. – disse Claire, com uma mão segurando o braço de Emily e com a outra segurando o meu.
Aquilo foi ótimo. Você tinha que ver a cara da Whitney ao ouvir aquilo. As demais garotas mimadas do grupo ficaram boquiabertas, fofocando entre si. Whitney bufou, empinou o nariz e disse:
- Hum! Não sabe o tipo de oportunidade que está perdendo.
As meninas saíram, todas de nariz empinado, fazendo um barulho absurdo com seus saltos que lembrava uma marcha. Emily apenas observava toda a situação como alguém de fora. Era incrível como ela não era afetada pela opinião alheia.
- Isso mesmo, Claire! Não dá bola pra essas garotas – falei todo empolgado. Ela apenas sorriu.
Continuamos nosso caminho tortuoso até o refeitório, quando somos abordados mais uma vez, só que, desta vez, pelas garotas da torcida, que se aproximam fazendo barulho e falando alto.
- Claire, Claire! Temos uma proposta pra vc!
- Ah! O que é?
- Estamos em busca de uma líder de torcida. Uma de nossas estrelas, a Ashley, acaba de desistir de praticar cheerleading. Precisamos de alguém como vc. É perfeita para o cargo! É bela, popular e tem um sorriso mais simpático ainda que o da antiga cheerleader. O que acha?? Responde!
Várias vozes falavam a mesma coisa ao mesmo tempo pra nossa pobre pop star. Ela nos segura pelo braço e diz, antes de disparar até o refeitório:
- Desculpe. Tenho que pensar no assunto. Prometo que, assim que tiver uma opinião a respeito, vcs ficarão sabendo. Tchau-tchau!
Corremos em direção ao refeitório. Aquilo era realmente muito chato. Devia ser um saco ser uma pop star e ter que dar explicações educadas pra todo mundo. Enfim chegamos ao refeitório. Agora poderíamos almoçar em paz. Aproveitei para perguntar:
- A Ashley desistiu de ser cheerleader? Eu não sabia disso.
- O Ray me falou alguma coisa a respeito. Algo sobre ela não mais querer ser reconhecida apenas pelos seus dotes físicos, mas sim pelos intelectuais. Ouvi dizer, também, que ela venceu a eleição e se tornou a nova presidente do grêmio estudantil. – respondeu Emily.
- Puxa, quem diria...
A Ashley era a nova representante dos alunos perante o núcleo educacional? Aquilo não podia ser coisa boa. Bem, o resto de nosso dia foi razoavelmente normal. Assim que o sino bateu, encontrei as garotas me esperando no portão da escola. Partimos em direção ao tal parquinho. Esperava apenas que ninguém me visse brincando numa balança. Isso seria o fim da minha reputação. Era tarde e o sol já se punha no horizonte, dando aquela coloração típica de cair da tarde que parece deixar o mundo inteiro mais alaranjado. Havia algumas poucas mães cuidando de seus filhos na gangorra e no escorregador. Por sorte, os balanços estavam desocupados, então as garotas sentaram, a Claire em um balanço amarelo e a Emily em um azul.
- Não vai sentar Max? – perguntou Claire.
- Ah, não. Deixa pra lá. To bem em pé.
- E então, Claire, pode nos contar o que quis dizer aquele dia? – perguntou Emily.
- Bem... Eu disse a vcs que sentia que já os conhecia de algum lugar né? Foi assim: já tava tudo certo sobre a minha ausência da mídia por algum tempo. Eu não sabia, exatamente, o que fazer durante essa ausência. Foi quando tive um sonho.
- Sonho? – perguntei. Já repararam que eu sou campeão em fazer perguntas retóricas sem sentido algum? O fato é que eu previa algo que não gostava. Essas coisas subjetivas como os sonhos da Claire e as intuições da Emily sempre me deixaram bastante desconfortável.
- Sim. Era como se eu voltasse a ser criança. Costumo sonhar bastante com a minha infância, mas são sempre sonhos ruins... Fazia muito tempo que não sonhava algo feliz como foi desta vez.
- E como era o sonho? – perguntou Emily.
- Era um parquinho como esse, cheio de brinquedos coloridos e cercado por um bosque muito bonito. Contando comigo, havia, nesse parquinho, nove crianças que brincavam e se divertiam de uma forma muito especial. Essas crianças éramos nós, os Escolhidos.
- Puxa! – comentei – Então eu estava nos seus sonhos mesmo antes de te conhecer?
- Sim! Não só estava como vc, Max, era o líder da brincadeira. Era o mais divertido de todos e o que inventava quais jogos e brincadeiras a gente faria. Lembro claramente de todos os Escolhidos no parquinho. Ray, Jhonny, Ben, Ashley... Estávamos todos lá, mas éramos todos crianças nesse sonho. Não parecia que nos conhecíamos muito bem, mas não nos importávamos com isso.
- E o que mais?
- Ah, bem... A gente brincava de todo o tipo de coisa, desde pega - pega a pique - esconde. Desde jogar bola a pular corda. A gente explorava todos os brinquedos, desde o balanço a gangorra e o escorregador, e rodávamos no carrossel a uma velocidade incrível! Eu sentia um pouco de medo. Era a mais medrosa do grupo e não tinha coragem nem de subir até o final no trepa-trepa, mas vcs todos pareciam querer cuidar de mim... Pareciam querer me divertir. Me senti tão querida... Lembro das brincadeiras, como o pega - pega, em que eu corria como se minha vida dependesse daquilo, e me sufocava em meio a tantos risos. Corria tanto que acordei com o coração disparado e o peito dolorido, mas valeu a pena, pois esse sonho foi uma das coisas mais alegres que já me aconteceu!
Quem diria que a pop star do momento tinha sonhos tão infantis quanto aquele? A garota sorria com o olhar perdido no vazio enquanto contava o sonho de uma forma cheia de ternura. Parecia lembrar de nós com muito carinho. Seria possível que fossemos tão especiais para ela quanto parecia?
- E vc lembra como eram os dois outros? – perguntou Emily.
- Ah... Que outros?
- Os Escolhidos que ainda não encontramos.
- Ah sim! Desculpe. Então... Se não me engano, era um menino e uma menina. Ele era alto, magro, inteligente e conhecia todos os brinquedos como ninguém. Ela... Bem... Não consigo lembrar ao certo como ela era. Lembro apenas que ficava sentada num banquinho afastado, rindo e comentando as brincadeiras.
Emily se levantou do balanço.
- Bem, isso quer dizer que Claire já revelou seu poder secreto.
- O quê?? – perguntei.
- O poder de prever o futuro em sonhos. Será uma habilidade bastante útil, e...
- Bem eu... – interrompeu Claire.
- O que é? – disse Emily.
- Sabe? Eu tenho trabalhado duro nos últimos anos com a TV e a música. Conheci muitas pessoas desde que entrei pra esse ramo e fiz amizades com todo o tipo de gente do mundo do entretenimento, mas foram todas muito superficiais e passageiras. Agora quero fazer amizades verdadeiras, com gente normal como vcs. Amizades sinceras que durem uma vida inteira!
Normais? Nós? Aquilo só podia ser brincadeira.
- E, bem, todo esse lance sobre Escolhidos. Não somos meros amigos. Somos uma espécie de “Aliança Galáctica” que tem como objetivo salvar todos os seres humanos do Mal. Nossa relação é mais que humana: é mágica! Aposto que ainda me divertirei muito e quero que saibam que estou realmente muito feliz por ter conhecido todos vcs!
Quê? "Aliança Galáctica"??? A garota dizia toda aquela baboseira com o maior sorriso angelical no rosto. A Emily apenas sorriu e concordou. Parecia que mais uma estranha entrava para nosso grupo.
- Ei Max! – chamou Claire, acenando e sorrindo para mim.
Era sempre a mesma ladainha. Ela dava tratamento especial para mim e o resto dos Escolhidos, logo eu, Emily e Ben, que estudávamos na mesma classe que ela, nos tornamos conhecidos e invejados por todos. A garota conseguiu fugir do grupo de fãs e correu até onde eu estava. Me cumprimentou com um beijinho no rosto. Todo dia era a mesma coisa, inclusive o lance com o beijo, o que fazia os garotos que estivessem por perto me encararem com um olhar de pura inveja. E eu, que sempre quis passar despercebido por todos, agora era o centro das atenções. Bem, também eu não tinha de quê reclamar. Os beijos eram suaves e molhadinhos. Dava vontade de nunca mais lavar a bochecha. Sem falar que a garota usava um perfume delicioso.
- Tudo bem? – me perguntou Claire, com o sorriso simpático de sempre.
- Ah... Tudo bem.
Ouvi alguém falar à nossa volta “Quem é esse cara?” e “Por que a Claire dá tanta bola pra ele?”. Bem, acho que isso devia consertar a minha reputação, mas, mesmo assim, nunca gostei de ser o centro das atenções. O sinal bateu e corremos assistir a uma emocionante aula de química da Srta. Smith. Aquilo era um saco. Claire passou a sentar do lado de Emily, uma carteira atrás e na diagonal da minha. Por algum motivo estúpido a pop star passou a bajular a esquisita. Claire conversava a todo o momento com Emily. Não que a esquisita respondesse muito, mas a outra não parecia se importar. Isso rendia algumas repreensões da Srta. Smith. Algo como “Senhorita Campbell, o fato de ser uma estrela adolescente não significa que possa acabar com a ordem em minha aula” e a garota respondia de cabeça baixa e olhar de cachorrinha sem dono: “Perdão, Srta. Smith. Prometo que não irá se repetir”, mas a situação sempre se repetia. Bem, ela não devia se importar muito com a escola. Se eu tivesse a grana que ela ganhava por ano, mandava a escola se danar.
Intervalo. Estávamos nos preparando para o almoço. Claire e Emily conversavam sobre alguma coisa qualquer. A curiosidade me bateu com força.
- Desculpa Claire.
- Sim, Max?
- Por que foi que vc voltou a estudar? Digo, vc deve ganhar bastante dinheiro com a TV, a venda dos teus álbuns, as fotos em revistas e tudo mais. Se eu tivesse o dinheiro que vc tem, jamais voltaria a estudar.
A garota riu do que falei. Qual era a graça?
- Bem... Não foi exatamente esta a minha idéia. É que meu empresário explicou que alguém do juizado de menores podia nos processar caso eu perdesse mais um ano de estudo. Sem falar que eu realmente tava precisando de umas férias e... Sabe? Depois de um ano apenas fazendo shows e gravações, a gente acaba sentindo falta da escola.
- Puxa... Nunca pensei nisso. Dá pra entender – menti. Eu jamais entenderia. Como alguém poderia enjoar de nunca mais ter que ir à escola? Imagina alguém como eu, com o dinheiro dela? Eu trataria de comprar uma rua inteira só pra mim - uma que fosse perfeita para algumas manobras - e passaria o dia inteiro nela, na maior paz e tranqüilidade.
- Com licença Claire – chamou Emily.
- Sim!
- Vc disse que, assim que fizesse parte dos Escolhidos, nos contaria o que quis dizer com aquela história de já conhecer cada um de nós. Já se passou uma semana e vc está sempre por perto da gente, então presumo que já se considere uma Escolhida. Poderia nos explicar, então, o significado daquilo que disse?
Não sei por que Emily tinha que tratar tudo sempre daquele jeitão tão formal. Deu que a Claire sorriu. Um sorriso gentil que só ela sabia dar.
- Ta bem! Eu devo isso à vcs, mas gostaria que a conversa não fosse aqui, dentro do colégio. Tem um parquinho perto daqui. Ta sempre cheio de crianças e os brinquedos são bem coloridos. Eu gosto muito de balanços. O que acham de a gente conversar lá?
Parquinho? E por acaso a gente tinha sete anos? Ela gostava de balanços? Seria possível que eu fosse a única pessoa normal naquele grupo?
- Ta bem. Então, depois da aula vamos ao parquinho. Certo Max? – perguntou Emily.
- Ah, por mim tudo bem.
Saímos em direção ao refeitório. A cada passo, Claire era abordada por um fã diferente. Aquilo era tão idiota. Pra que toda aquela comoção? Digo, é claro que a menina era bonita e gostosa, mas também não era pra tanto. O bicho pega quando a gente cruza no corredor com Whitney e suas seguidoras, com suas bolsinhas de grife e seus saltos de sei lá quantos centímetros, fazendo um barulho absolutamente irritante com suas pulseiras brilhantes.
- Olá Claire, querida. – disse Whitney.
A garota a cumprimenta com a simpatia habitual.
- Olá! Tudo bem?
- Sim, querida. Vc já deve saber quem sou, não é?
- Ah... Lamento. Sou nova no colégio.
As seguidoras trocam olhares surpresos. Como alguém poderia deixar de conhecer Whitney? A líder dá um sorriso amargo de meia boca e diz:
- Eu sou Whitney e o nosso grupo é o mais popular entre os grupos femininos do colégio. Somos desejadas pelos homens e invejadas pelas mulheres. Sabemos andar com estilo, e todos sabem disso. Deixa eu te dar um conselho, querida: tenho um bom faro pra gente refinada como eu, e posso dizer que, nesse colégio, alguém refinada como vc só tem a perder andando com gente como esses dois aí – disse a nojenta, apontando para mim e para Emily.
- Bem, eu...
- É uma ocasião especial. Estamos te convidando a sentar em nossa mesa durante o almoço. É uma oportunidade única. São pouquíssimas as garotas convidadas a fazer parte da nossa recreação. Então vamos?
- Bem, é que...
- O que é? Pode falar, já somos amigas. Precisa ir ao banheiro antes de almoçar? Sinceramente, vc precisa de uma maquiagem mais expressiva. Todos reparam nisso no refeitório, e...
- Não! É que eu já combinei de almoçar com meus amigos aqui. Sinto muito. – disse Claire, com uma mão segurando o braço de Emily e com a outra segurando o meu.
Aquilo foi ótimo. Você tinha que ver a cara da Whitney ao ouvir aquilo. As demais garotas mimadas do grupo ficaram boquiabertas, fofocando entre si. Whitney bufou, empinou o nariz e disse:
- Hum! Não sabe o tipo de oportunidade que está perdendo.
As meninas saíram, todas de nariz empinado, fazendo um barulho absurdo com seus saltos que lembrava uma marcha. Emily apenas observava toda a situação como alguém de fora. Era incrível como ela não era afetada pela opinião alheia.
- Isso mesmo, Claire! Não dá bola pra essas garotas – falei todo empolgado. Ela apenas sorriu.
Continuamos nosso caminho tortuoso até o refeitório, quando somos abordados mais uma vez, só que, desta vez, pelas garotas da torcida, que se aproximam fazendo barulho e falando alto.
- Claire, Claire! Temos uma proposta pra vc!
- Ah! O que é?
- Estamos em busca de uma líder de torcida. Uma de nossas estrelas, a Ashley, acaba de desistir de praticar cheerleading. Precisamos de alguém como vc. É perfeita para o cargo! É bela, popular e tem um sorriso mais simpático ainda que o da antiga cheerleader. O que acha?? Responde!
Várias vozes falavam a mesma coisa ao mesmo tempo pra nossa pobre pop star. Ela nos segura pelo braço e diz, antes de disparar até o refeitório:
- Desculpe. Tenho que pensar no assunto. Prometo que, assim que tiver uma opinião a respeito, vcs ficarão sabendo. Tchau-tchau!
Corremos em direção ao refeitório. Aquilo era realmente muito chato. Devia ser um saco ser uma pop star e ter que dar explicações educadas pra todo mundo. Enfim chegamos ao refeitório. Agora poderíamos almoçar em paz. Aproveitei para perguntar:
- A Ashley desistiu de ser cheerleader? Eu não sabia disso.
- O Ray me falou alguma coisa a respeito. Algo sobre ela não mais querer ser reconhecida apenas pelos seus dotes físicos, mas sim pelos intelectuais. Ouvi dizer, também, que ela venceu a eleição e se tornou a nova presidente do grêmio estudantil. – respondeu Emily.
- Puxa, quem diria...
A Ashley era a nova representante dos alunos perante o núcleo educacional? Aquilo não podia ser coisa boa. Bem, o resto de nosso dia foi razoavelmente normal. Assim que o sino bateu, encontrei as garotas me esperando no portão da escola. Partimos em direção ao tal parquinho. Esperava apenas que ninguém me visse brincando numa balança. Isso seria o fim da minha reputação. Era tarde e o sol já se punha no horizonte, dando aquela coloração típica de cair da tarde que parece deixar o mundo inteiro mais alaranjado. Havia algumas poucas mães cuidando de seus filhos na gangorra e no escorregador. Por sorte, os balanços estavam desocupados, então as garotas sentaram, a Claire em um balanço amarelo e a Emily em um azul.
- Não vai sentar Max? – perguntou Claire.
- Ah, não. Deixa pra lá. To bem em pé.
- E então, Claire, pode nos contar o que quis dizer aquele dia? – perguntou Emily.
- Bem... Eu disse a vcs que sentia que já os conhecia de algum lugar né? Foi assim: já tava tudo certo sobre a minha ausência da mídia por algum tempo. Eu não sabia, exatamente, o que fazer durante essa ausência. Foi quando tive um sonho.
- Sonho? – perguntei. Já repararam que eu sou campeão em fazer perguntas retóricas sem sentido algum? O fato é que eu previa algo que não gostava. Essas coisas subjetivas como os sonhos da Claire e as intuições da Emily sempre me deixaram bastante desconfortável.
- Sim. Era como se eu voltasse a ser criança. Costumo sonhar bastante com a minha infância, mas são sempre sonhos ruins... Fazia muito tempo que não sonhava algo feliz como foi desta vez.
- E como era o sonho? – perguntou Emily.
- Era um parquinho como esse, cheio de brinquedos coloridos e cercado por um bosque muito bonito. Contando comigo, havia, nesse parquinho, nove crianças que brincavam e se divertiam de uma forma muito especial. Essas crianças éramos nós, os Escolhidos.
- Puxa! – comentei – Então eu estava nos seus sonhos mesmo antes de te conhecer?
- Sim! Não só estava como vc, Max, era o líder da brincadeira. Era o mais divertido de todos e o que inventava quais jogos e brincadeiras a gente faria. Lembro claramente de todos os Escolhidos no parquinho. Ray, Jhonny, Ben, Ashley... Estávamos todos lá, mas éramos todos crianças nesse sonho. Não parecia que nos conhecíamos muito bem, mas não nos importávamos com isso.
- E o que mais?
- Ah, bem... A gente brincava de todo o tipo de coisa, desde pega - pega a pique - esconde. Desde jogar bola a pular corda. A gente explorava todos os brinquedos, desde o balanço a gangorra e o escorregador, e rodávamos no carrossel a uma velocidade incrível! Eu sentia um pouco de medo. Era a mais medrosa do grupo e não tinha coragem nem de subir até o final no trepa-trepa, mas vcs todos pareciam querer cuidar de mim... Pareciam querer me divertir. Me senti tão querida... Lembro das brincadeiras, como o pega - pega, em que eu corria como se minha vida dependesse daquilo, e me sufocava em meio a tantos risos. Corria tanto que acordei com o coração disparado e o peito dolorido, mas valeu a pena, pois esse sonho foi uma das coisas mais alegres que já me aconteceu!
Quem diria que a pop star do momento tinha sonhos tão infantis quanto aquele? A garota sorria com o olhar perdido no vazio enquanto contava o sonho de uma forma cheia de ternura. Parecia lembrar de nós com muito carinho. Seria possível que fossemos tão especiais para ela quanto parecia?
- E vc lembra como eram os dois outros? – perguntou Emily.
- Ah... Que outros?
- Os Escolhidos que ainda não encontramos.
- Ah sim! Desculpe. Então... Se não me engano, era um menino e uma menina. Ele era alto, magro, inteligente e conhecia todos os brinquedos como ninguém. Ela... Bem... Não consigo lembrar ao certo como ela era. Lembro apenas que ficava sentada num banquinho afastado, rindo e comentando as brincadeiras.
Emily se levantou do balanço.
- Bem, isso quer dizer que Claire já revelou seu poder secreto.
- O quê?? – perguntei.
- O poder de prever o futuro em sonhos. Será uma habilidade bastante útil, e...
- Bem eu... – interrompeu Claire.
- O que é? – disse Emily.
- Sabe? Eu tenho trabalhado duro nos últimos anos com a TV e a música. Conheci muitas pessoas desde que entrei pra esse ramo e fiz amizades com todo o tipo de gente do mundo do entretenimento, mas foram todas muito superficiais e passageiras. Agora quero fazer amizades verdadeiras, com gente normal como vcs. Amizades sinceras que durem uma vida inteira!
Normais? Nós? Aquilo só podia ser brincadeira.
- E, bem, todo esse lance sobre Escolhidos. Não somos meros amigos. Somos uma espécie de “Aliança Galáctica” que tem como objetivo salvar todos os seres humanos do Mal. Nossa relação é mais que humana: é mágica! Aposto que ainda me divertirei muito e quero que saibam que estou realmente muito feliz por ter conhecido todos vcs!
Quê? "Aliança Galáctica"??? A garota dizia toda aquela baboseira com o maior sorriso angelical no rosto. A Emily apenas sorriu e concordou. Parecia que mais uma estranha entrava para nosso grupo.
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